Manuela Ferreira Leite foi ontem eleita presidente do PSD e será a candidata do partido às eleições legislativas de 2009. Terá sido aliás a ideia de se tratar da melhor opção para enfrentar Sócrates que terá feito a diferença junto dos militantes. Acontece que Ferreira Leite teve um “pequeno” descuido de linguagem que poderá muito bem minar a sua candidatura ao cargo de Primeiro Ministro.
Num encontro com jovens, Ferreira Leite afirmou que a precariedade no emprego é agora normal e que isso pode ser positivo para os jovens. Do ponto de vista racional ou filosófico este argumento é legítimo, já do ponto de vista político é um erro tremendo! “Normal” e “positivo” não são propriamente adjectivos que estejamos à espera de encontrar associados à palavra “precariedade” sobretudo quando o contexto é o emprego. As pessoas querem “segurança”, não em termos de “empregos para a vida”, mas sim segurança que lhes permita pagar as contas ao fim do mês, constituir família e tirar umas merecidas férias de quando em vez. A imagem que Ferreira Leite passou foi a de “isto é a realidade, aguentem-se à bronca”!
Acontece que os eleitores não querem que lhes recordem a realidade, nem que lhes digam que se aguentem à bronca! Querem que lhes falem de um futuro melhor, mas sem minimizar os problemas pelos quais terão de passar. Querem ter a certeza que no final de um período de crise a bonança está à sua espera! Esse não foi o discurso de Manuela Ferreira Leite e com isso pode vir a pagar caro nas eleições.
O mau uso das palavras não só irá permitir a associação de Manuela Ferreira Leite à defesa da precariedade, e de certeza que os partidos de esquerda (provavelmente não o PS) irão usar essa cartada, como retirará à candidata do PSD uma importante arma de arremesso contra Sócrates. A precariedade laboral é um dos principais problemas do país e um que mexe com a quase totalidade do eleitorado, de forma directa ou indirecta. Ao reconhecer que se trata de uma situação “normal” e até “positiva”, Ferreira Leite fica sem espaço de manobra para atacar Sócrates nessa frente, facto que o actual Primeiro Ministro não deixará de agradecer.
Manuela Ferreira Leite pode ser a pessoa mais competente do Mundo, mas não sabe falar a linguagem dos eleitores! Foi esse o seu grande problema enquanto Ministra das Finanças, e será esse o seu principal obstáculo na candidatura que irá apresentar. Os eleitores preocupam-se com os seus problemas do dia-a-dia, não com as questões macro-económicas ou como o défice público. As teorias económicas são obsoletas para quem apenas quer saber se o ordenado chegará ao fim do mês, ou se quando se reformar terá de arranjar um part-time para sobreviver. Os políticos portugueses ainda não perceberam que falam uma língua diferente da dos cidadãos que os elegem. Aqui sim era preciso um acordo ortográfico!


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