Spin de McCain Pode Afastar Independentes

2008 Junho 5

Não é só em Portugal que os políticos cometem gaffes em termos de comunicação. Na luta pelas presidenciais norte-americanas John McCain realizou uma manobra de spin que lhe poderá custar caro em termos de apelo aos eleitores independentes. No final de 2007, o Senador Republicano criticou a administração Bush por ter realizado ilegalmente escutas telefónicas a cidadãos norte-americanos; uma postura que lhe granjeou elogios por parte de democratas e independentes.

No entanto, mais recentemente após ter sido veiculado que McCain queria que tanto a administração como as companhias telefónicas fossem ouvidas, um porta-voz da sua candidatura veio afirmar que o Senador não deseja que tal aconteça. Mais importante foi este segmento da comunicação:

We do not know what lies ahead in our nation’s fight against radical Islamic extremists, but John McCain will do everything he can to protect Americans from such threats, including asking the telecoms for appropriate assistance to collect intelligence against foreign threats to the United States as authorized by Article II of the Constitution.

A frase é de tal forma forte e passível de interpretação que a Wired resolveu titular o seu artigo acerca do tema desta forma:

McCain: I’d Spy on Americans Secretly, Too

A verdade é que, analisando à luz da política norte-americana, aquilo que McCain fez foi retratar-se junto do eleitorado republicano a quem a sua “cedência” aos pedidos democratas pareceria um sinal de fraqueza num tópico onde leva alguma vantagem sobre Obama: a segurança nacional! A forma como o comunicado foi redigido enfatiza essa aproximação com uso de expressões com “radical Islamic extremists” e “will do anything he can to protect Americans”.

O problema é que grande parte desta eleições será decidida pelos independentes e essas mesmas palavras não são normalmente muito apreciadas por este segmento do eleitorado. Em primeiro lugar, teria sido mais prudente não utilizar conotações religiosas atacando o Islão. Uma abordagem mais capaz de agradar a republicanos, independentes e mesmo democratas seria a ter-se referido a terroristas, embora mantendo os adjectivos “radicals” e “extremists” que servem para enfatizar o perigo.

Por outro lado, ao invés de referir-se ao artigo II da Constituição, que por mais bonito que soe duvido que a grande maioria dos eleitores saiba que existe, deveria ter-se limitado a afirmar que faria tudo o que fosse possível para proteger os norte-americanos respeitado a Lei. Os artigos constitucionais são vagos e estão “longe” do povo, agora a Lei não! A Lei é omnipresente e deve ser respeitada por todos, mesmo o Presidente dos EUA. E a verdade é que não estaria a faltar a verdade se posteriormente usasse escutas ilegais, porque tal está previsto na lei.

Agora que as primárias Democratas chegaram ao fim, a corrida à Casa Branca vai de facto começar. Como tal, a “guerra” de palavras entre Obama e McCain passará a ser o foco. A cobertura que será dada pelos media desempenhará um papel fundamental. Basta atentar no título que a Wired usou, colocando um comunicado em discurso directo, atribuindo-lhe uma dimensão mais pessoal, e utilizando a palavra “espiar” que tem conotações mais fortes e negativas do que “escutar” ou “vigiar”.

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