Eleitores Indecisos… Mas Pouco
Durante uma campanha eleitoral o grupo em qual se centram as principais “ofensivas” de propaganda partidária é o dos chamados Indecisos, isto é, dos eleitores que afirmam ainda não ter optado por nenhum partido ou candidato em particular. Esta aposta faz sentido já que é este grupo que será mais facilmente persuadido a aderir a um programa partidário. É muito mais complicado alterar o sentido de voto de um eleitor que já o definiu do que de um que ainda está a explorar as hipóteses existentes. Mas será assim?
De acordo com um estudo recentemente realizado em Itália, os chamados Indecisos apenas o estarão a um nível consciente, porque na realidade a sua decisão sobre o sentido do seu voto já estará tomada. O estudo, realizado por Bertram Gawronski, Silvia Galdi e Luciano Arcuri, demonstrou que certas associações automáticas que são processadas pelos eleitores influenciam o seu sentido de voto, mesmo que estes não estejam conscientes da sua existência ou do seu efeito.
O estudo foi levado a cabo em Vincenza durante um período em que se discutia a possibilidade de haver um alargamento de uma base militar dos EUA nos arredores da cidade, tendo sido proposto um referendo para se decidir sobre a matéria. Para avaliar os sentimentos implícitos, mas nem sempre conscientes, dos eleitores acerca do assunto, os investigadores recorreram a um teste psicológico chamado Implicit Association Test (IAT), que é, como o nome indica, usado para medir as associações implícitas dos seres humanos relativamente a um determinado objecto social, no caso a base militar norte-americana.
O teste do IAT mede a velocidade de resposta dos sujeitos a um determinado estímulo. No caso deste teste, os estímulos são emparelhamentos das imagens do objecto de estudo com palavras com conotação positiva ou negativa. Quanto menor for o tempo de resposta a um determinado tipo de estímulo, maior é a associação do sujeito entre a atitude do sujeito com o estímulo exibido. Ou seja, um sujeito que tivesse um tempo de resposta mais rápido a estímulos que emparelhavam imagens da base militar com palavras negativas do que com palavras positivas teria, supostamente, uma atitude mais negativa em relação ao alargamento da base. O inverso ocorreria se a associação com as palavras positivas fosse mais forte.
Foi exactamente isso que os investigadores verificaram quando uma semana depois do teste com o IAT questionaram os participantes acerca da sua tendência de voto. Foi possível predizer com exactidão os resultados para cerca de 70% dos participantes.
Este estudo demonstra, uma vez mais, que nem todas as decisões que tomamos são plenamente conscientes, já que muitas são influenciadas por questões das quais não nos apercebemos. É preciso que se distinga isto de um comportamento intuitivo ou imprudente. Estas associações existem e estaríamos plenamente conscientes da sua existência aquando da sua formação ou se por algum motivo tivéssemos de pensar aprofundadamente sobre o assunto em questão. Acontece que, por vários motivos, se tornaram menos salientes no nosso pensamento o que as torna menos acessíveis a um nível inconsciente. Uma entrevista aprofundada com estes participantes, em que estes tivessem de pensar no assunto, tornaria estas associações evidentes e “conscientes”.
Isto não quer dizer que a “batalha” pelo voto dos Indecisos esteja à partida perdida. Mesmo tendo em conta que em princípio a indecisão dos eleitores será apenas aparente, já que a sua decisão estará em parte tomada pelas suas associações implícitas, estes continuam a ser um alvo mais fácil de convencer do que o grupo dos eleitores que já tomaram a sua decisão e a afirmaram publicamente. Quer porque neste último caso a sua atitude será mais forte, quer porque a afirmação pública do sentido de voto, mesmo que no contexto de uma sondagem, representa um compromisso assumido que será mais difícil de quebrar.
