Sinistralidade Rodoviária: Alterar as Atitudes dos Portugueses (I) via Educação

2009 Janeiro 8
by Bruno Ribeiro

Continuando com o tema dos últimos dois posts, hoje vou apresentar ‘a’ sugestão para a mudança de atitudes dos condutores portugueses. Como referi no último post, a mentalidade dos condutores nacionais no que toca à condução sob o efeito do álcool centra-se sobretudo na questão da punição e da fuga à mesma. Aquilo que leva à diminuição de um comportamento de risco não é a consciencialização dos potenciais danos físicos que podem resultar da sua prática, mas sim a necessidade de evitar ser multado pela prática do mesmo.

Isto acontece porque existe uma grande falta de cultura cívica dos condutores portugueses, para não dizer dos portugueses em geral. Não é uma característica ‘genética’ dos portugueses, apesar de muitos atribuírem ao nosso ADN essa característica. É somente uma questão cultural, que se estende a outras situações do dia-a-dia e que é necessário alterar se queremos combater efectivamente a sinistralidade rodoviária.

Uma das formas de garantir que isso acontece é através da educação. Em Portugal não é dado muito enfâse a disciplinas que promovam a cidadania e o civismo. Recordo-me que do 5º ao 9º ano de escolaridade tinha a possibilidade de optar entre duas disciplinas: Religião Moral e Desenvolvimento Pessoal e Social (DPS) – acho que era este o nome. A segunda disciplina teria como objectivo precisamente o ensino de boas práticas em termos cívicos; apesar de a seleccionar, nunca tive uma aula por falta de docentes. Aliás, DPS era a escolha de todos os alunos porque já se sabia que iria representar um ‘furo’ no horário.

Não sei como as coisas estão hoje em dia com as constantes mudanças curriculares, mas não me parece que o civismo e a cidadania sejam uma preocupação do ministério. Na realidade deveriam ser as principais áreas de preocupação do ministério, mas adiante. É necessário educar as pessoas desde cedo! Deveria haver tempo alocado para este tipo de ensinamentos desde a primária. É uma estratégia que demorará tempo a produzir resultados visíveis, mas se houver uma educação para a cidadania e civismo desde os primeiros tempos de escola é garantido que no futuro o número de acidentes rodoviárias irá diminuir mesmo que as estradas e os automóveis continuem a ser os mesmos de hoje.

Há quem julgue que é nas escolas de condução que se devem incutir estes princípios. Nada mais errado! Nas escolas de condução está o alvo mais imediato do ensino, mas são também o público mais difícil de mudar em termos atitudinais quer porque a disposição não é assim tanta, quer porque já existem um corpo de aprendizagens feitas ao longo da vida com os quais os ensinamentos fornecidos nas escolas de condução vão chocar.

Para alterar de vez o cenário de mortalidade nas estradas portuguesas o Estado – porque é um problema de Estado e não de um qualquer Governo – tem de apostar definitivamente na educação dos portugueses em termos de civismo e cidadania, começando pelos mais jovens. E é também importante que se perceba que isso não é uma tarefa para os professores ou para os teóricos das ciências de educação. É uma tarefa multidisciplinar que envolve estes dois grupos, mas também psicólogos, antropólogos, sociólogos, engenheiros, juízes, polícias… Ou seja, um espírito de cooperação que raramente se vê por estes lados. Já era altura de variar um bocadinho!

Para amanhã reservo uma outra sugestão complementar que passa pela comunicação.

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