Apesar de já levar uma semana de atraso, não quero deixar de dar aqui o meu contributo para a discussão sobre as discrepâncias entre os resultados eleitorais e as previsões avançadas pelas várias sondagens realizadas durante a campanha. Como ponto prévio, devo dizer que o alarido todo que se fez – sobretudo no caso do CDS – serve mais como aproveitamento político do que como crítica justa, sendo que a propostas de proibir a divulgação de sondagens no período de campanha apresentada por este partido um completo absurdo.
Posto isto, não há como negar que as empresas e institutos que realizaram sondagens durante as Europeias falharam redondamente! E falharam sobretudo devido à elevada abstenção que deturpa os resultados obtidos nas sondagens. Isto porque os dados das sondagens não reflectem a importância que a abstenção tem ou terá sobre os resultados finais de uma forma inteiramente fidedigna. Será possível fazê-lo? De momento não conheço nenhuma metodologia que permita efectuá-lo com a precisão desejada, mas será necessário aperfeiçoar a existente para evitar nova derrapagem.
De todos os partidos aquele que mais motivos de queixa teria para se queixar seria o PS e não o CDS. Não há como saber se não terá sido a confiança dada pelas sondagens aos eleitores dos socialistas que levou a que muitos destes têm ‘abdicado’ de votar na plena confiança de que a vitória estaria assegurada. Isto é claro uma hipótese que lanço que, não sendo nada descabida, carece de demonstração empírica.
Durante as primárias democratas nos EUA, o mesmo sucedeu com as sondagens em New Hampshire que davam a vitória a Obama por larga margem, acabando por ser Hillary Clinton a vencer esse Estado. As sondagens servem como uma estimativa feita com base em certos pressupostos e com margens de erro estimadas; não são bolas de cristal que permitem ‘adivinhar’ o futuro!
Daí a colocar-se em causa todo um sector vai um passo bem grande! Os erros não foram assim tão grandes e só o facto do PS ter sido dado como crónico vencedor em praticamente todas as sondagens originou todo esta discussão. As sondagens não são instrumentes perfeitos porque avaliam intenções e não comportamentos, que o acto de votar é. Existe uma grande diferença entre aquilo que as pessoas dizem que vão fazer – ou que pensam vir a fazer – e aquilo que acabam por fazer. É uma limitação evidente dos inquéritos por questionário que sempre existiu e para a qual existem poucas soluções – é possível minimizar os efeitos, mas só até certo ponto.
Serão as próprias empresas que efectuam sondagens – e estudos de mercado – a sair prejudicadas desta incapacidade de prever com alguma certeza os resultados. Em épocas de crise, os estudos de mercado são quase sempre sacrificados em termos orçamentais – o que é um erro crasso – e esta situação não vem ajudar em nada o sector.
Em Portugal fazem-se boas e más sondagens, com boas e más metodologias. Como acontece em todo o lado. O facto dos resultados das sondagens terem sido completamente desfasados deve ser tido em conta pelos partidos políticos para o futuro, exigindo mais das empresas. Da mesma forma, as empresas de sondagem deverão avaliar aquilo que fizeram de errado e procurar corrigir as suas metodologias. Não fazem sentido as tiradas demagógicas nem as críticas puramente destrutivas – feitas normalmente por quem não tem conhecimento de causa.

