Category Archives: Comunicação

Usar Remorso e Culpa Para Aumentar o Número de Dadores de Órgãos

Aumentar o número de dadores de órgãos e de sangue é uma questão essencial ao nível da saúde pública. Um pequeno aumento na percentagem de dadores pode significar um acréscimo significativo no número de vidas salvas. A maioria das campanhas realizadas para este propósito centram-se na possível necessidade futura dos alvos, procurando-os colocar na posição de, eventualmente um dia, serem eles a necessitar da generosidade de outros.

Uma outra tipologia de campanha que visa o mesmo fim, foca-se mais na criação de um sentimento de culpa, neste caso pela inacção. Um exemplo é este anúncio sul-africano:

A ideia da campanha é simples: associar o não ser dador de órgãos a um egoísmo assassino. Este princípio de culpabilização e remorso, embora não seja do agrado de todos e até seja considerado por muitos como desadequado, não deixa de ser eficaz. Há alguns anos atrás o mesmo princípio esteve na origem da alteração de conceito das campanhas de prevenção rodoviária britânicas, cujos anúncios passaram a focar mais o impacto negativo que a irresponsabilidade dos condutores tem sobre as outras pessoas, ao invés dos impactos negativos que essa responsabilidade teria sobre o próprio condutor.

Um exemplo disso e a famosa campanha “It’s 30 for a reason” cujos anúncios chocantes foram alvo de polémica pelo carácter excessivamente visual dos mesmos, como podem ver abaixo.

Onde a campanha da sul-africana falha, i.e. tem uma menor capacidade de persuasão, reside no facto de não criar uma maior empatia com as potenciais vítimas, centrando a atenção do público-alvo no impacto da acção sobre essa pessoa em particular – o que no caso da campanha da Think em cima apresentada acontece, sendo a própria vítima a relatar os factos.

Ainda assim, a melhor forma de aumentar o número de dadores continua a ser retirar as barreiras que existem para a inscrição de dadores, como tornar os formulários opt-out e não opt-in, uma vez que as pessoas tendem a seguir o caminho de menor resistência e a deixarem de actuar a inércia.

Um Spa no Metro de Nova Iorque

A equipa do Improve Everywhere é conhecida pela sua irreverência e pela capacidade de criar momentos de animação e reflexão. Um dos últimos “números” foi a criação de um spa no metropolitano de Nova Iorque, em resposta às temperaturas elevadas que se fazem sentir nas estações deste serviço de transporte.

A ideia é óptima, e a execução é excelente. Fica a questão: quanto não ganharia uma marca se tivesse feito uma acção deste género?

Colgate: Pasta dos Dentes em Máquinas de Venda Automática

Nem sempre é fácil surpreender o público com campanhas para artigos de conveniência, como é o caso da pasta dentrífica. O normal são anúncios com gente com sorriso perfeito felizes enquanto escovam os dentes, situações embaraçosas em que dentes mal lavados prejudicam as actividades diárias das personagens, ou o simples anúncio “científico” com alguém de bata branca a enaltecer todas as vantagens de um produto face a toda a concorrência.

Mas pensar fora do convencional, às vezes traz as suas vantagens como é o caso desta campanha da Colgate que emparelhou amostras do seu produto com doces comprados numa máquina de venda automática. Para além de surpreender os consumidores, fá-lo de uma forma extremamente relevante para a categoria em que o produto se insere.

TomTom: Seios Atléticos

Já há algum tempo que não apresentava aqui um exemplo do uso gratuito de sexo em acções publicitárias. Hoje trago um anúncio da TomTom para o seu aparelho de fitness de pulso que não necessita que o utilizador use uma cinta peitoral para recolher dados biométricos. E que melhor forma de demonstrar essa inovação do que um anúncio cheio de close-ups aos seios de uma corredora?

Ikeahacking: A História de uma Oportunidade Perdida

jules-sad Chegados a 2014 é interessante constatar que, por muita evangelização que seja feita e por muitos posts em blogs que se tenham criado, a “socialização” do mundo corporativo ainda é um processo na sua infância. O paradigma hiper-protectivo da marca e da sua imagem ainda reina, e a co-criação de valor, não obstante alguns exemplos interessantes, é ainda uma utopia relegada para projectos menores e pontuais.

Vem isto a propósito da recente “polémica” entre a Ikea e o site Ikeahackers.net, resultante de uma acção Cease & Desist da multinacional sueca para o abandono da utilização do nome da empresa na denominação do site, ou para, mantendo o nome, que o mesmo deixe de ter qualquer fim comercial, incluindo a exibição de anúncios publicitários. Podem ler a explicação do caso neste post do criador do site.

Do ponto de vista legal e corporativo, a Ikea fez o que seria de esperar (estranho é que tenha demorado tanto): viu uma utilização abusiva da sua marca, e agiu para impedir que a mesma continuasse. Além disso, há que acrescentar que as alterações aos produtos podem resultar numa menor funcionalidade e durabilidade dos mesmos, sendo compreensível que a Ikea não quisesse ser responsabilizada por situações que não controla.

Há no entanto a perda de uma clara oportunidade de criar valor para a sua comunidade e para a sua própria marca. Sendo evidente que o site apresentava formas “não sancionadas” de utilização dos produtos Ikea, também é verdade que o mesmo ajudava a promover a marca e a fazer crescer o seu impacto comercial, mostrando que há mais vida num modelo de estantes do que simplesmente decidir se é colocado na vertical ou na horizontal.

Aquilo que a Ikea poderia, e deveria, ter feito era integrar o site na sua estratégia digital e garantir que toda a publicidade apresentada no site era sua, e que seria fácil para os utilizadores, a partir dos vários posts, efectuar a compra dos produtos da marca. Poderia, e deveria, ter acordado com os proprietários do site que, em todos os posts, fosse colocado um aviso a desresponsabilizar a marca pelo uso dos seus materiais para outros fins que não aqueles para que foram feitos. Poderia, e deveria, promover a comunidade a apresentar formas criativas de utilização dos seus produtos e poderia, e deveria, criar anualmente uma amostra nas suas lojas dos designs mais criativos e originais. Poderia e deveria.

Mas para isso era preciso “largar” um pouco mais a marca para que esta pudesse ser trabalhada pelos consumidores. E é este medo de perder controlo por algo que é seu que leva as empresas a não assumirem uma política mais aberta e social. O que se esquecem é que na realidade, sempre foram os consumidores a “controlarem” a imagem das marcas.

Imagem: ikeahackers.net

O Diário de um Sem-Abrigo no Facebook

O recurso às plataformas de social media para campanhas pró-sociais não é algo de novo, mas é sempre interessante ver boas execuções como este caso em que o dia-a-dia de um sem-abrigo de Viena foi acompanhado no Facebook com o intuito de consciencializar as pessoas para os problemas de quem vive na rua, e das entidades que trabalham para as ajudar.

Normas Sociais: Quando o Feitiço se Vira Contra o Feiticeiro

As normas sociais têm um elevado valor persuasivo sobre as pessoas. Em situações ambíguas – e mesmo em outras mais claras – tendemos a seguir o comportamento daqueles que nos rodeiam. Não é por isso de estranhar que a validação social seja um instrumento usado com muito frequência em campanhas de marketing. No entanto, esta é verdadeiramente uma “faca de dois gumes” na medida em que se usada erradamente pode produzir os efeitos contrários ao desejado.

Isto é sobretudo evidente em campanhas em que se pretende combater um comportamento negativo ou introduzir um novo comportamento por oposição a um que já se encontra em vigor. Por exemplo, um estudo realizado em parques naturais dos EUA revelou que quando eram usados sinais anti-furto de madeira em que eram representados 3 pessoas, a percentagem de madeira furtada aumentava quase 8%. A utilização de sinais com apenas 1 pessoa representada levou a um crescimento de menos de 2%. Estes aumentos resultaram do facto dos sinais reforçarem, em diferentes ordens de magnitude, uma norma social contrária aquela que os responsáveis pretendia incutir.

Todos os jovens conduzem sob o efeito do álcool

Este era um erro muito cometido em campanhas pró-sociais contra a condução sob o efeito de álcool de jovens. Há alguns anos atrás era normal estas campanhas recorrerem a anúncios quase estandardizados: um grupo de jovens divertia-se à noite com consumo de álcool, no regresso a casa um deles, ou mais, conduzia sob o efeito do álcool e sofria um acidente. A lógica por trás destes anúncios era uma demonstração clara de causa e efeitos, que se assumia iria levar os jovens a ser mais conscientes com os seus comportamentos.

Na realidade estes anúncios apenas reforçavam a norma de que sair à noite, beber e conduzir sob o efeito do álcool era normal e aquilo que os jovens faziam. Como tal, apenas salientavam o comportamento que se pretendia inibir de uma forma da qual resultava o efeito contrário.

Os Portugueses não usam medicamentos genéricos

Um caso similar, e do qual já aqui falei, foram as campanhas de promoção dos medicamentos genéricos em Portugal. Nesses campanhas salientava-se o facto de em outros países (com especial incidência para a Finlândia) o uso de genéricos era muito mais disseminado do que em Portugal, com o intuito de dessa forma convencer os portugueses das virtudes e qualidades dos produtos.

No entanto, esses anúncios demonstravam claramente que o uso de genéricos não era a norma em Portugal. Pelo contrário, a grande maioria dos portugueses não recorria a medicamentos genéricos, e ao apresentar esses dados os anúncios limitavam-se a reforçar a norma social de que os portugueses – o grupo de referências para o público-alvo – não usavam genéricos.

As normais sociais influenciam o comportamento tanto para o bem como para o mal. A utilização deste método de persuasão, quando feita de forma descuidada, pode ter os resultados opostos aos pretendidos. É fundamental ter o cuidado de analisar se não se promove o comportamento contrário ao pretendido, ao enfatizar que essa é a norma social em vigor.