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Usar Remorso e Culpa Para Aumentar o Número de Dadores de Órgãos

Aumentar o número de dadores de órgãos e de sangue é uma questão essencial ao nível da saúde pública. Um pequeno aumento na percentagem de dadores pode significar um acréscimo significativo no número de vidas salvas. A maioria das campanhas realizadas para este propósito centram-se na possível necessidade futura dos alvos, procurando-os colocar na posição de, eventualmente um dia, serem eles a necessitar da generosidade de outros.

Uma outra tipologia de campanha que visa o mesmo fim, foca-se mais na criação de um sentimento de culpa, neste caso pela inacção. Um exemplo é este anúncio sul-africano:

A ideia da campanha é simples: associar o não ser dador de órgãos a um egoísmo assassino. Este princípio de culpabilização e remorso, embora não seja do agrado de todos e até seja considerado por muitos como desadequado, não deixa de ser eficaz. Há alguns anos atrás o mesmo princípio esteve na origem da alteração de conceito das campanhas de prevenção rodoviária britânicas, cujos anúncios passaram a focar mais o impacto negativo que a irresponsabilidade dos condutores tem sobre as outras pessoas, ao invés dos impactos negativos que essa responsabilidade teria sobre o próprio condutor.

Um exemplo disso e a famosa campanha “It’s 30 for a reason” cujos anúncios chocantes foram alvo de polémica pelo carácter excessivamente visual dos mesmos, como podem ver abaixo.

Onde a campanha da sul-africana falha, i.e. tem uma menor capacidade de persuasão, reside no facto de não criar uma maior empatia com as potenciais vítimas, centrando a atenção do público-alvo no impacto da acção sobre essa pessoa em particular – o que no caso da campanha da Think em cima apresentada acontece, sendo a própria vítima a relatar os factos.

Ainda assim, a melhor forma de aumentar o número de dadores continua a ser retirar as barreiras que existem para a inscrição de dadores, como tornar os formulários opt-out e não opt-in, uma vez que as pessoas tendem a seguir o caminho de menor resistência e a deixarem de actuar a inércia.

The Fun Theory: 4 anos continua viva

Há 4 anos atrás a Volkswagen lançou a sua iniciativa “The fun theory” com as famosas “escadas piano”. O conceito por detrás desta iniciativa foi o de que o método mais simples e eficaz de conseguir mudar o comportamento das pessoas seria o de fazê-lo de uma forma divertida e dinâmica. Desde então algumas iniciativas, privadas e públicas, publicitárias ou não, têm vindo a seguir a mesma linha de pensamento de mudar comportamentos e atitudes através acções de interacção com o público.

O mais recente exemplo chega de Moscovo onde os passageiros do metro local podem adquirir bilhetes em troca de exercício físico. A iniciativa tem o duplo propósito de promover os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, que se realizam em Sochi, e de consciencializar os moscovitas para a prática de desporto e de estilos de vida mais activos e saudáveis:

Um outro exemplo muito interessante, e que também envolve bilhetes para o metro, chega-nos de Pequim, onde os passageiros podem adquirir bilhetes de metro em troca de garrafas de plástico doadas para reciclagem:

Ainda dentro do tema da reciclagem, um outro exemplo interessante é o “Bottletheatre” desenvolvido pela marca alemã de cerveja Astra: em troca de garrafas vazias, os transeuntes podem assistir a espectáculos privados.

Bónus: as “piano stairs” da Volkswagen

O efeito da validação social online

Já há muito que em psicologia social ficou assente que os seres humanos usam o comportamento dos outros como pistas para assumir qual o comportamento correcto ou quais as opções certas em situações ambíguas. O NY Times noticiou recentemente mais um estudo que demonstra que a validação social é um factor persuasivo também em ambiente online, isto é, sem a presença directa com outras pessoas, e que pode ser facilmente manipulado.

A notícia pode ser lida aqui:

http://www.nytimes.com/2013/08/09/science/internet-study-finds-the-persuasive-power-of-like.html?_r=2&

O Impacto das Redes Sociais na Actividade Física das Crianças

Não é novidade nenhuma que a pressão exercida pelos nossos pares tem uma grande influência nas decisões que tomámos, sobretudo em períodos do nosso desenvolvimento em que ainda estamos a formar a nossa identidade e a necessidade de pertença tem um maior apelo. Os gostos e práticas das nossas redes sociais (termo aqui usado no seu sentido original e não como descrição generalizada de plataformas digitais) moldam os nossos gostos e as nossas práticas, desde as marcas que gostamos, à música que ouvimos, ou a práticas diárias como é o caso do consumo de tabaco.

Normalmente vilipendiada pelos efeitos nocivos que pode ter – deste o referido tabagismo até à prática de condutas anti-sociais – a pressão dos pares pode também ser usada para incutir comportamentos mais positivos, ou socialmente mais aceitáveis, como é o caso de aumentar os níveis de exercício entre crianças. Pelo menos é o que aponta um estudo realizado por investigadores da Vanderbilt School of Medicine, onde um grupo de crianças foi avaliada durante um período de 12 semanas. O estudo demonstrou que o factor que mais influenciava o tempo que uma criança passava a realizar actividades físicas era o nível de actividade dos seus 6 amigos mais próximos. Ou seja, quanto mais activa a rede social, mais activa a criança (é importante compreender que cada criança é influenciada pelos seus pares, mas também é influenciadora dos mesmos, devendo a rede social ser compreendida como um todo que se auto-influencia).

At the start of the program, none of the children knew one another well, so the researchers were able to track how the youngsters made and dropped friends and what effect these changing relationships had on their physical activity level.

Turned out, it was a big one: during the time the children spent in the program, the strongest factor influencing how much time they spent engaged in moderate to vigorous physical activity was the activity level of their four to six closest friends. In fact, children changed their exercise level about 10% to better match those in their circle; children who hung out with more active students were more likely to increase their physical activity levels, while those who befriended more sedentary children became less active.

O impacto das redes sociais ao nível da saúde de um indivíduo é um tema cada vez mais estudado. Já aqui referi os estudos realizados por Nicholas Christakis e James Fowler ao nível da obesidade e como a mesma pode ser contagiosa dentro de uma comunidade.

Este estudo da Vanderbilt, comparando com os estudos de Christakis e Fowler, tem a vantagem de ter estudado in loco o desenvolvimento das redes sociais não se baseando em “artefactos” antropológicos – não que estes não tenham o seu valor, antes pelo contrário. Fica no entanto a dúvida, uma vez que não se trata de um desenho experimental, se são as redes sociais que influenciaram as crianças a adoptar uma postura mais activa, ou se foi o nível de actividade pré-estudo que levou à formação dessas redes sociais, isto é, as crianças mais activas “procuraram” outros que se assemelhassem a elas.

Via: Time

Imagem: À moi! À moi! by Philiphoto

Quantos votos vale uma celebridade? O caso Oprah Winfrey

Dificilmente haverá hoje em dia alguma personalidade televisiva mais influente do que Oprah Winfrey. A apresentadora norte-americana tem o verdadeiro “toque de Midas”, uma vez que praticamente todas as marcas que recomenda se tornam sucessos quase instantâneos. O Efeito Oprah, como é designado, tem ajudado a vender livros, colants, pipocas e sabonetes, como comprova a Claus Porto, cujos sabonetes se tornaram um sucesso após serem recomendados por Oprah. A LAFCO, empresa que comercializa os sabonetes nos EUA, registou um aumento do volume de negócios em mais de 1 milhão de euros em 30 dias após surgirem no programa de Oprah.

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A Psicologia da Persuasão do E-Commerce

O e-commerce, apesar da falta da componente física, rege-se pelas mesmas regras comportamentais do comércio offline. Não é por isso de estranhar que vejamos constantemente os 6 Princípios de Persuasão em acção nas vendas online, seja através das recomendações que recebemos dos nossos contactos, ou da visualização de estatísticas relativas a avaliações de produtos feitas por outros utilizadores. Já aqui falei de como a Groupon faz uso destes 6 princípios de forma eficaz no seu site.

O infográfico, desenvolvido pela Tabjuice, abaixo representa bem a aplicação destes princípios ao e-commerce e é uma ferramenta útil para quem desenvolve campanhas de marketing digital.

O Impacto (Reduzido) das Redes Sociais nas Eleições?

Desde a famosa campanha de Obama que o impacto que as redes sociais podem ter no desfecho político de uma eleição têm sido alvo de inúmeros estudos. O próprio Facebook vangloriou-se da capacidade predictiva da plataforma relativamente às eleições para o Senado norte-americano em 2010.

No entanto, nem todos os dados apontam para este cenário de grande influência das redes sociais. Os próprios dados relativos às eleições que Obama ganhou demonstram que foram os eleitores mais velhos a garantir a vitória Democrata. Igualmente, uma análise baseada unicamente no número de seguidores no Facebook não permite prever os resultados das primárias Republicanas, como indica um artigo da AdAge:

Despite Mr. Obama’s much-hyped “youth quake,” the young social-media army often credited with carrying him into the White House, the 2008 election was won by galvanizing an older population of Democrats and independents, many of whom had never used social media.

Even more recently, the wild inconsistency between Republican primary wins and social-media prowess has made the relative unimportance of social media in political campaigns all the more obvious (i.e. internet heavyweight Ron Paul hasn’t won a single primary). (…)

In a key contest of 2010, Tea Party favorite Sharron Angle vs. Senate Majority leader Harry Reid, Facebook was wildly off. In late October, Ms. Angle had a staggering seven times as many Facebook fans as Mr. Reid (104,000 to 14,000), yet he snagged a comfortable victory, 50% to 45%. Thus, while it is tempting to believe that the size of a candidate’s online fan-base is significantly helpful in getting elected, the numbers just don’t add up.

O artigo continua afirmando que a melhor forma de garantir que uma pessoa irá votar é através da pressão social dos seus pares, e influenciando essa pessoa directamente. Melhor ainda será se, à pressão social, se juntar a capacidade de levar essa pessoa a assumir publicamente o compromisso de votar evocando a norma da consistência.

Apesar de concordar com alguns dos pontos do artigo, e de achar que o impacto das plataformas das redes sociais é excessivamente sobrevalorizado, também sou da opinião que estas plataformas, quando geridas adequadamente, têm um potencial elevado para a mobilização do eleitorado. Infelizmente o artigo centra-se unicamente na capacidade de predicção dos resultados de uma dada eleição, e esquece-se que mais do que um barómetro ou uma sondagem de opinião esta plataformas são um canal de comunicação e socialização.

Link: AdAge - Waiting for the ‘Twitter Election?’ Keep Waiting