Homens Verdes e Sociedades Secretas : porque acreditamos em Teorias da Conspiração

Foto de Anthony Crider

Este artigo foi publicado inicialmente na edição de 12 de Março da newsletter do Dissonância Cognitiva. Se não quiser perder os artigos em primeira mão, e sugestões de conteúdos da área da psicologia do consumidor, subscreva a newsletter em http://news.bribeiro.eu

Templários. Illuminati. Chegada à Lua. Visitas de Extraterrestres. 11 de Setembro.

Estas são apenas 5 das mais famosas teorias da conspiração que circulam, ou circularam, por vários fóruns de discussão da humanidade. Seja nas plataformas de redes sociais online, fóruns escondidos na dark web, no café da esquina ou em algum local de encontro secreto apenas conhecido pelo grupo dos iluminados (não confundir com os referidos Illuminati), estas teorias que promovem explicações para eventos significativos que envolvem manobras secretas de bastidores por parte de governos ou organizações secretas poderosas, são algo que sempre fez parte do imaginário da humanidade.

Contrariamente ao que algum sensacionalismo faz querer parecer, não são um fenómeno do Facebook, Twitter ou Parler. São algo que conseguimos encontrar ao longo dos séculos, como as referidas teorias sobre os Cavaleiros Templários ou os Illuminati, ou ainda a teoria de que Isabel I de Inglaterra era na realidade um homem. Uma teoria que resulta de uma tradição da cidade inglesa de Bisley onde durante o festival da Primavera, um jovem rapaz da cidade se veste como Rainha.

De acordo com estórias da cidade, a então Princesa Isabel terá fugido da praga para esta cidade acabando por morrer. De forma a evitar ser punida por Henrique VIII, a ama da jovem terá encontrado um rapaz parecido com a princesa que a substituiu. Uma teoria da conspiração ajudada pelo facto de Isabel I nunca ter casado, e ser conhecido como a Rainha Virgem, e sobretudo por ter muitos inimigos interessados em denegrir a sua imagem.

O que nos leva a acreditar em teorias da conspiração? Porque motivo é que têm tanto apelo?
As pessoas tendem a acreditar em teorias da conspiração como forma de criar sentido do Mundo, da sua relação com a sociedade, ou como forma de ganhar algum controlo sobre o contexto que as rodeia. É sobretudo em contextos de ambiguidade e incerteza, que as teorias da conspiração ganham força pela sua capacidade de oferecer uma explicação simples (não no sentido de ser simplista, mas no de fácil apreensão) que, normalmente, identifica um “outro” como sendo responsável pelos infortúnios ou azar da pessoa.

As teorias da conspiração têm também uma função de proteção pessoal, na medida em que nos permitem defender crenças que temos enraízadas perante ameaças externas. Se o nosso clube, que acreditamos ser o melhor, se encontra num momento mais negativo, a crença de que uma conspiração de bastidores movida pelos rivais é mais apelativa do que a possibilidade de efectivamente haver algo de errado do nosso lado.

A crença em teorias da conspiração também oferece por vezes a possibilidade de pertença a um grupo, que confere uma identidade social a um indivíduo. A ideia de fazer parte de um grupo escolhido, é bastante apelativa para algumas pessoas. É também comum as teorias da conspiração se disseminarem mais rapidamente entre elementos de grupos – raciais, étnicos, religiosos, políticos – minoritários, e com um historial de perseguição ou ostracismo.

Tendo em conta o impacto negativo que algumas destas teorias têm – basta relembrar o impacto da teoria QAnon nos Estados Unidos ou o movimento anti-vacinas – como é que podemos garantir que as mesmas não se disseminam de forma viral? A verdade é que não existe um método que garanta o sucesso.
A melhor forma de prevenir a disseminação de teorias da conspiração é, ironicamente, usar métodos de inoculação, tal como fazemos a nível médico. Prevenir é melhor que remediar, é um adágio que também se aplica a estes “vírus cognitivos”. Vários estudos demonstram que quando as pessoas são prevenidas da facilidade com que as teorias da conspiração se disseminam, tendem a estar mais alerta e menos susceptíveis. De igual modo, expor as pessoas a informação factual sobre o tema antecipadamente, ou expondo as teorias da conspiração logo no seu início, apresenta também resultados positivos no controlo da disseminação destas ideias.

Mais complicado é lidar com aquelas pessoas que já investiram o seu tempo, relações e recursos (intelectuais ou mesmo financeiros) em função das suas crenças em teorias da conspiração. O simples desmistificar da teoria não é, muitas vezes, suficiente para a eliminar, até pelo conflito cognitivo que isso causa aos elementos que nela acreditam.

Nestas situações, ocorrem frequentemente fenómenos de dissonância cognitiva, em que o desconforto psicológico causado pela existência de crenças ou atitudes em conflito, leva a que as pessoas rejeitam, evitem ou criem justificações para que novas informações não sejam integradas.

Por exemplo, quando a predição feita sobre o fim do mundo a membros de um grupo que acreditava estar em contacto com sere extraterrestres não se concretizou, muitos dessas pessoas passaram a reforçar a sua crença no grupo. A sua justificação é que havia sido a sua crença que tinha evitado a destruição do planeta.
Neste cenários, a estratégia que melhor tem resultado é expor os crentes a narrativa de ex-membros do grupo que alteraram as suas convicções. No entanto, há sempre a possibilidade dessas narrativas serem integradas na teoria da conspiração, justificando a mudança de atitude do ex-membro como resultado de pressões externas por parte “deles”, ou mesmo a definição desse indivíduo como uma “ovelha negra” do grupo ou um espião infiltrado.

Em suma, apesar de serem as pessoas com menos estudos as mais susceptíveis de aderirem a teorias da conspiração, não há uma relação linear entre inteligência e a crença de que o Mundo é controlado por poderes obscuros. Numa época de pandemia, em que teorias sobre a origem do vírus, o modo como os governos mundiais reagiram, ou sobre os efeitos das vacinas, proliferam, é importante comunicar de forma clara, objectiva e de forma adequada para cada audiência para evitarmos mal maiores. Até porque, existem casos de teorias da conspiração que foram comprovadas como sendo reais.