O Poder das Autoridades: do Médico de Família a Marcelo Rebelo de Sousa passando pelo Dr. House

Como referi no post onde explicitei, de forma simples, os princípios da norma da autoridade, a atribuição do estatuto de “autoridade” não obedece a uma regra universal. Trata-se, como expus, de uma característica do emissor de uma mensagem que é percebida pela audiência. Em termos simples, podemos dizer que alguém apenas é considerado uma autoridade se esse for a percepção dos seus ouvintes. Eu posso ser uma autoridade em astrofísica (não sou apesar de ser uma área que me fascina e sobre a qual sei um pouco) que se o resto da sociedade não me reconhecer como tal, a minha capacidade de persuasão ao nível da astrofísica será nula.

Como referi no posto anterior, a autoridade pode ser atribuída com base em diversos factores: conhecimento demonstrado, cargo que ocupa, título académico… Um caso prático em termos de autoridade é a dos médicos de família, pelo cargo que ocupam, pelos estudos académicas e pela imagem e estatuto social de que gozam. A regra de aceitarmos aquilo que os nossos médicos de família nos dizem acerca da nossa saúde é muito útil já que estamos a falar de um assunto que esse grupo de pessoas domina. Seguir à risca as indicações médicas acerca de uma dada doença, seja como preveni-la ou como lidar com ela, é boa política já que pode ser essencial para nossa sobrevivência. Por outro lado, aceitar conselhos do nosso médico acerca de como investir na bolsa sem consultar um especialista no assunto seria potencialmente um erro. Bem como seria seguir a indicação de um corretor sobre a melhor forma de curar uma pneumonia. Pode parecer um pouco estranho este exemplo, mas a verdade é que o estatuto de autoridade numa dada área é por vezes transposto para outras que em nada lhe estão relacionadas.

Esta transferência de autoridade tanto pode ocorrer entre áreas de conhecimento como entre os papéis sociais que uma pessoa “representa”. Isso acontece frequentemente com actores que desempenha papéis de grande relevo em filmes ou séries televisivas. Muitas vezes ocorre que a autoridade atribuída às personagens
que interpretam é transferida para a vida real. O actor Hugh Laurie, que interpreta a personagem Gregory House na série de sucesso House, revelou recentemente numa entrevista que é várias vezes abordado, pessoalmente ou por carta, por pessoas que lhe pedem conselhos médicos acerca de variadíssimas doenças. Este fenómeno de transferência é muitas vezes aproveitado pela publicidade que coloca esses mesmos actores em anúncios relacionados com os papéis que desempenham. Por exemplo, o recurso a Hugh Laurie para uma publicidade a um medicamento, a um tipo de tratamento ou num anúncio de serviço público a alertar para questões relacionadas com a saúde seria extremamente persuasivo.

O último caso de que quero aqui falar é o da super-autoridade, papel que é atribuído a comentadores televisivos e que em Portugal tem Marcelo Rebelo de Sousa como expoente máximo. O papel que estas pessoas têm em termos mediáticos confere-lhes um estatuto de autoridade mesmo em áreas nas quais a sua opinião valerá tanto como de outra pessoa qualquer. Quando Marcelo Rebelo de Sousa faz as suas aparições dominicais na TV o país para para ouvi-lo e grande parte da agenda das horas e dias seguintes é marcada por aquilo que disse. Seja política (onde a sua autoridade seria plena), seja justiça, educação ou futebol (onde deveria ter o mesmo valor que o de uma conversa de café). O facto de ser anunciado como Professor Marcelo (um título correcto) ajuda a aumentar a autoridade percebida das suas opiniões.

Estes 3 casos espelham bem os potenciais problemas que a transferência da autoridade de um campo ou de um papel para outro podem trazer. Como indiquei no post anterior, a melhor forma de lidar com a anuência automática que resulta da atribuição de autoridade a uma pessoa é a de tentar contextualizar a informação para percebermos se essa pessoa é de facto uma autoridade no assunto em discussão, ou se estamos a valorizar a sua opinião por uma questão de transferência de autoridade.

Este post pertence à serie Princípios de Persuasão.

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