O Fim das Teorias Científicas? Felizmente Não!

Num artigo que tem tanto de interessante como de preocupante, Chris Anderson, editor-chefe da Wired e autor de The Long Tail, afirma a sua crença de que a humanidade está a caminhar para uma situação em que as grandes, e pequenas, teorias científicas – das mais variadíssimas áreas do conhecimento – deixaram de ser importantes para o funcionamento da humanidade. Afirma Anderson que a crescente capacidade computacional existente levará a que cada vez menos sejam necessárias teorias explicativas de como as coisas ocorrem, será apenas necessário saber que ocorrem e ter as ferramentas disponíveis para prever a sua ocorrência.

Um dos exemplos usados por Chris Anderson é, como não poderia deixar de ser, o Google! Anderson sustenta a sua ideia em exemplos como a capacidade do tradutor disponibilizado pelo Google ser uma ferramenta eficiente, mas não perfeita, embora sem a necessidade de recorrer a uma teoria da linguagem para funcionar. Um simples algoritmo é suficiente para que seja possível uma tradução minimamente razoável de um texto de inglês para português. Ao longo da peça são apresentados outros exemplos para defender a ideia de que um sistema computacional capaz de analisar uma quantidade infindável de dados, mesmo tratando-se apenas de correlações estatísticas, será suficiente para o progresso humano. Nada mais errado!

Usando o exemplo da linguagem, por muito útil que seja uma ferramenta capaz de efectuar uma tradução básica numa utilização ocasional, caso se pretenda um trabalho mais correcto, ou mesmo aprender uma nova língua, será necessário aprender e perceber a teoria por detrás dessa linguagem, como sejam as regras gramaticais. O mesmo se suceder para qualquer outra área de conhecimento: embora seja útil dispor de ferramentas que nos permitam analisar e prever situações sem que consigamos perceber aquilo que está na sua origem, este é um tipo de conhecimento bastante limitado e que nos deixaria à mercê dessas ferramentas! Conseguir prever uma epidemia é bastante útil, mas se formos capazes de perceber o que causa esse surto e quais as condições facilitadoras para a sua propagação, estaremos limitados a assumir uma postura reactiva.

Já aqui tentei explicar a diferença entre correlação e causalidade, um facto que muita gente fora dos meios científicos tende a descurar. Por muito forte que seja a correlação entre dois fenómenos, e por muitas vezes que essa correlação se constate, é perfeitamente possível que ele ocorra porque, por exemplo, existe uma terceira variável em jogo. Conseguirmos constatar a existência de uma correlação, mas não sermos capazes de perceber o que a causa resultará num estado perpétuo de ignorância em que nos limitaremos a assistir à ocorrência de fenómenos sem sermos capazes de os interpretar. Além do mais, essa nossa ignorância impedir-nos-ia de aplicar conhecimentos a outras áreas e na inovação das tecnologias existentes. Se Newton se tivesse limitado a constatar que uma maçã quando cai de uma árvore fá-lo em direcção ao solo, anotando essa correlação, todo o conhecimento acerca da gravidade e as aplicações daí resultantes não teriam surgido!

Chris Anderson está errado em sugerir que esta nova era em que é possível analizar uma quantidade crescente de dados com cada vez menos recursos, significa o fim das teorias científicas! Significa por outro lado novas oportunidades para alargar os limites do conhecimento adquirido e a colocar à prova de uma forma ainda mais severa as teorias que se foram mantendo ao longo do tempo. O método científico continua a ser a melhor forma de conhecermos o Mundo que nos rodeia e instigar o progresso tecnológico e humano. As novas ferramentas disponíveis apenas virão reforçar a Ciência! Se a “teoria” de Anderson se confirmasse iríamos passar a viver num Mundo ignorante e sem capacidade crítica.

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