McCain e os Blogs: Astroturfing ou Exagero Democrata?

As eleições norte-americanas são sempre interessantes de seguir, do ponto de vista político porque afectam directamente o resto do Mundo devido ao estatuto de única superpotência que os EUA conquistaram, do ponto de vista académico – pelo menos para mim – porque a política norte-americana é uma excelente fonte de informação e de observação no que toca ao uso de estratégias de influências, directas ou indirectas, diz respeito. Estas eleições em particular têm ainda o interesse acrescido de serem as primeiras onde os social media assumem um plano de destaque na estratégia dos candidatos e não apenas um papel secundário no apoio dado pelos eleitores ao candidato que pretendem ver ocupar a Casa Branca nos próximos 4 anos.

O Washington Post lançou no dia 7 um artigo muito interessante, do qual tomei conhecimento ao ler um post sobre o mesmo no PR Squared (recomenda-se a leitura de ambos) acerca do uso que a campanha de John McCain vai dando aos social media, focando-se no caso do programa Spread the Word. Este programa incita os apoiantes de McCain a comentarem nos mais relevantes blogs políticos norte-americanos espalhando mensagens, fornecidas pela candidatura de McCain, acerca do plano eleitoral do candidato republicano. Em contrapartida, os activistas podem acumular pontos, desde que registem as suas acções que serão posteriormente conferidas pelo staff de McCain, que lhes podem valer prémios que vão desde autocolantes de apoio a McCain, passando por uma boleia no autocarro de campanha ou jantares com o candidato.

A técnica usada pela campanha de McCain dá pelo nome de astroturfing, ou seja, fazer passar uma acção publicitária ou de relações públicas como sendo um movimente espontâneo por parte das bases de apoio, no caso a um candidato político. Ainda assim, não considero, como é o caso de Todd Defren no PR Squared que seja uma táctica encapotada e pouco ética, ou mesmo que se trate de um caso de astroturfing. Na realidade, aquilo que a campanha de McCain faz é fornecer dados aos seus apoiantes, indicar-lhes quais os melhores locais para os distribuir e incentivá-los a fazer isso fornecendo-lhes um incentivo. Em princípio nada disto é feito às escondidas até porque está claramente explícito no site de McCain, e não é muito diferente do que qualquer apoiante de um candidato fazer isso voluntariamente.

A campanha de McCain apenas aproveitou essa tendência natural de defesa do “seu” candidato online por parte dos eleitores, fornecendo-lhes material com o qual possam trabalhar. Esta situação é muito diferente de pagar a alguém para colocar comentários favoráveis nos blogs, ou para ter os próprios membros do staff a colocar esses mesmos comentários fazendo-se passar por outras pessoas. Nem sequer é possível encontrar algum local no site de McCain onde se indique aos participantes para não revelarem quem são e onde recolheram a informação. Da mesma forma, não é explícito que se peça aos participantes para copiar a informação do site e colocá-la nas caixas de comentários. Estes dois pontos foram simplesmente assumidos quer por Todd Defren, quer pelo Washington Post porque era a perspectiva que mais lhes convinha do ponto de vista político. Não digo que o façam propositadamente, mas sim que “leram” a informação com o viés normal de quem apoia um candidato diferente.

Concordo que seria preferível que a campanha de McCain tivesse uns termos de uso explícitos logo na página de apresentação do programa onde incentivasse os seus apoiantes para assinarem os comentários e para identificarem o local onde obtiveram a informação. Seria mais transparente, mas isso não significa que a situação actual seja incorrecta. Tudo somado, acho que os democratas podem capitalizar nesta situação porque podem fazê-la passar, como estão a fazer, como uma tentativa matreira de McCain de alterar a percepção da opinião pública enganando-os.

A ideia por detrás do programa é boa, a execução não é a melhor e muito menos aquela que eu aconselharia, e no final a publicidade negativa poderá acabar por prejudicar McCain; mas a ideia de que se trata de um táctica pouco clara, senão mesmo mentirosa, parece-me exagerada.

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