As Claques Teatrais: Como Persuadir os Espectadores a Bater Palmas

Durante este fim-de-semana desloquei-me ao Rivoli para assistir ao musical ‘Um Violino no Telhado’ com encenação de Filipe La Féria. Foi um espectáculo agradável mas abaixo daquele apresentado em ‘Jesus Cristo Superstar’. Mas musicais à parte, aquilo que me leva a escrever a este post foi a presença e comportamento de um dos membros da equipa de produção. Esta pessoa estava encarregado, através do seu posicionamento estratégico na parte mais recuada da plateia, de iniciar os aplausos, de incentivar os actores com ‘bravos’, em suma, fazia o papel de chefe de claque durante o espectáculo.

Embora possa parecer pouco escrupuloso, este é um hábito tradicional nos espectáculos teatrais e remonta à ópera de Paris em meados de 1820. Várias companhias foram criadas com o único propósito de servirem de claques durante os espectáculos teatrais. Uma delas tinha o nome perfeitamente óbvio de L’Assurance des Succès Dramatiques. Estes grupos, constituídos por um chefe de claque e pelos ‘claqueurs’, tinha por missão criar ’emoções’ no público de forma a que estes interagissem com o espectáculo e, também, o de garantir que o mesmo espectáculo fosse avaliado de forma mais positiva do que o que seria caso não houvessem palmas.

O negócio era de tal forma organizado que se manteve durante vários anos, e ainda hoje existem exemplos desse tipo de comportamento. No livro ‘Influência’ de Robert Cialdini, podemos encontrar uma tabela de preços de um dessas claques italianas:

Pelos aplausos à entrada, cavalheiros, 25 liras;

Pelos aplausos à entrada, senhoras, 15 liras;

Aplausos vulgares durante o espectáculo, cada 10 liras;

Aplausos insistentes durante o espectáculo, cada 15 liras;

Aplausos ainda mais insistentes, 17 liras;

Interrupções com ‘Bene!’ ou ‘Bravo!’, 15 liras;

Por um ‘bis’, 50 liras;

Entusiasmo a transbordar, preço a combinar.

Cada claque tinha os seus ‘especialistas’, isto é, membros que se especializavam num tipo de expressão como seja o riso estridente, o choro, as palmas ou a arte de gritar ‘Bravo!’. O mais interessante, é que esta actividade era perfeitamente conhecida por todos aqueles que assistiam às peças, mas ainda assim conseguia influenciá-los no seu comportamento durante o decurso do espectáculo e na sua avaliação no final do mesmo.

Voltando ao meu exemplo, bastava o responsável da equipa de produção iniciar as palmas para que elas rapidamente se alastrassem pela restante plateia. Incluindo aqueles que estavam perto e sabiam perfeitamente que a pessoa que iniciou os aplausos é paga para isso. Porque se deixam as pessoas ‘enganar’?

Na realidade, não há engano nenhum, apenas o princípio da validade social em acção. O facto de alguém aplaudir, mesmo sendo pago para isso, faz com que as pessoas saibam que é correcto aplaudir naquela ocasião. O desconhecimento de quando aplaudir durante um espectáculo é algo que afecta as reacções das pessoas porque ninguém quer fazer má figura. Perante esta incerteza, a presença de alguém que inicia os aplausos dá o mote para que o resto da plateia o acompanhe num processo de imitação. E com isto sai o espectáculo a ganhar, e os próprios espectadores que desfrutam melhor do mesmo!

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