A (IR)Racionalidade dos Mercados

No último mês temos sido bombardeados com notícias sobre a crise económica, sobre as suas causas, consequências e o que a mesma implica em termos da filosofia que guia a economia mundial. Explicações económicas, sociológicas e políticas não têm faltado; se válidas ou não, não me compete a mim julgar porque não sou especialista nessas matérias. Por outro lado, existem questões psicológicas em torno desta situação que não fizeram parte da discussão, mas que na realidade podem ajudar a perceber alguma coisa.

O principal problema da ‘economia de mercado’ situa-se na assumpção por parte dos seus defensores de que as pessoas são sempre racionais, isto é, que são capazes de avaliar os prós e os contras de cada situação e decidir aquilo que é melhor para si. Embora seja uma perspectiva muito optimista da natureza humana, e que em termos de ego nos faz bem a todos, trata-se na realidade de uma simplificação do comportamento humano, já para não falar numa sobrevalorização das nossas capacidades. É falso que sejamos seres puramente racionais e muitos dos nosso comportamentos escapam à lógica de avaliação cuidada das variáveis e escolha da melhor alternativa.

Não quero com isto dizer que os seres humanos não são ‘racionais’; apenas que não o são a 100% e de acordo com a definição – simplista é verdade – que dei acima. Muito do raciocínio e comportamento humano é feito com base em heurísticas e não em reflexões aprofundadas sobre os temas em questão. E ainda bem que assim é. Reflectir sobre um determinado acarreta um elevado consumo de ‘energia’; caso não recorrêssemos a heurísticas ser-nos-ia impossível acompanhar o ritmo contemporâneo onde temos de tomar decisões – nem que seja a de ignorar – várias vezes durante um dia. Muitas destas heurísticas têm grande valor adaptativo, outras são erradas ou aplicadas em contextos incorrectos. Algumas são-nos transmitidas culturalmente, outras desenvolvidas nas nossas experiências do dia-a-dia.

O grande problema aqui é que grande parte do conhecimento científico, e sobretudo nas ciências sociais, se baseia na proposição dualista de Descartes da separação entre corpo e mente, traduzida na separação entre emocional e racional. De acordo com esta perspectiva, existem dois tipos de processos de pensamento humano distintos: o emocional, onde ocorrem reacções mais viscerais e intuitivas; e o racional onde predominam os processos lógicos. Nas actuais teorias económicas é este último processo que rege o comportamento humano no mercado.

Acontece que hoje em dia não faltam evidências científicas de que a separação entre emocional e racional é uma teoria arcaica baseada em assumpções incorrectas à luz das capacidades científicas da altura. Não existem duas formas de pensamento humano; o emocional e o racional são dois aspectos da forma de processar informação por parte dos seres humanos. São interdependentes e não existem em separado. O mercado não é puramente racional, porque quem faz o mercado não são seres puramente racionais. Os seres humanos tanto podem assumir um processamento de informação ponderado avaliando cada uma das variáveis e as suas implicações cuidadosamente, como podem recorrer a simples heurísticas e ‘atalhos mentais’ para chegar a uma decisão.

Em termos práticos, muitos dos comportamentos a que temos assistido nos últimos tempos, como a corrida aos bancos para levantar fundos ou a venda apressada de acções, têm origem precisamente nestas heurísticas. Vendo e lendo entrevistas um pouco por todo o Mundo, nota-se que muitas pessoas tomaram estas acções porque toda a gente o estava a fazer e como tal acharam que essa seria a melhor solução. Um caso prático do princípio da validade social em acção. Para alguns casos a opção até era a mais acertada, para outras não tinha qualquer fundamento ‘racional’.

Isto não quer dizer que a economia de mercado não resulte; apenas que um dos seus fundamentos base é elaborado em premissas erradas.

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One thought on “A (IR)Racionalidade dos Mercados

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