Privação Relativa: Porque Nem Sempre Mais Significa Melhor

Continuando no tema da ‘irracionalidade’ que por vezes guia o comportamento humano, hoje irei explorar o sentimento de insatisfação que pessoas e grupos por vezes expressam quando do ponto de vista objectivo não existem motivos que justifiquem essa insatisfação. Podendo parecer um pouco estranho, a verdade é que os movimentos para a igualdade racial e um pedido de aumento de um jogador de futebol têm um mecanismo psicológico em comum: a privação relativa! Claro que existem outros motivos, alguns mais importantes e outros menos, que contribuem para cada uma das situações que referi, mas irei apenas centrar-me naquilo que têm em comum.

E o que é afinal a privação relativa? É um sentimento de descontentamento que surge da percepção de que estamos a ser privados de algo a que teríamos direito, sobretudo algo que percebemos que outros indivíduos ou grupos com os quais nos comparámos possuem. Esse ‘algo’ pode significar o salário ao fim do mês, a posse de bens materiais, o reconhecimento das nossas capacidades, etc… Este sentimento de privação é denominado de ‘relativo’ porque surge precisamente por comparação com a situação de indivíduos ou grupos de referência.

Existem dois tipos de privação relativa: a privação relativa ‘egoísta’ e a privação relativa ‘fraterna’. O primeiro caso é denominado de ‘egoísta’ porque se refere ao sentimento de privação que uma pessoa sente quando compara a sua situação com a de outros membros do seu grupo de pertença. É isto que acontece no caso dos jogadores de futebol que pedem um aumento por verificarem que certos colegas de equipa recebem um salário superior ao seu.

A privação relativa ‘fraterna’ ocorre quando o termo de comparação é feito entre grupos, isto é, quando comparámos a situação do nosso grupo de pertença com a de outros grupos sociais. É este tipo de privação que está em movimento nos casos de protestos pela igualdade entre grupos, como seja o fim de políticas de descriminação racial, ou a favor da liberalização do casamento entre homossexuais.

Também é possível que o sentimento de privação relativa ocorra em termos temporais, ou seja, quando um indivíduo ou grupo compara a sua situação actual com a do seu passado. Este fenómeno ajuda a explicar o porquê de muitas revoltas civis ou militares ocorreram logo após um período em que um grupo estava progressivamente a conseguir um aumento na sua qualidade de vida. O movimento dos direitos civis norte-americano nos anos 60 é um bom exemplo deste tipo de casos. Por esta altura, os cidadãos negros eram menos descriminados do que, por exemplo, no início do séc. XX e o seu nível de vida estava a subir paulatinamente, embora ainda longe do da população branca. No entanto, por essa altura houve um ligeiro abrandamento nos progressos que iam sendo alcançados o que aumentou o sentimento de privação existente.

As alturas de abrandamento económico após um período de forte crescimento são propícias a originar um sentimento de privação relativa entre a população de um país pelo facto das suas expectativas de crescimento futuro não estarem a ser cumpridas. Uma lição que qualquer político com ambições governativas deveria aprender.

É comum assistirmos a comparações feitas por políticos, especialistas ou opinadores que apenas têm em conta apenas dados absolutos e tiram por isso conclusões erradas. O facto do salário médio em Portugal ser superior ao valor praticado nos anos 80 não significa que os portugueses não se sintam privados. Pode ser que as expectativas de aumento fossem superiores ao ocorrido, ou que a inflação resulte em que o aumento salarial signifique menor poder de compra.

A privação relativa é algo que todas as instituições devem estar atentas no sentido de evitar situações de crise que por vezes atingem proporções impensáveis e atingem pontos de não retorno. Em próximos posts irei apresentar dois exemplos concretos deste fenómeno.

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3 thoughts on “Privação Relativa: Porque Nem Sempre Mais Significa Melhor

  1. Pingback: A Privação Relativa e os Salários dos CEO Americanos « Dissonância Cognitiva

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