A Privação Relativa e a Felicidade dos Chineses

A adopção crescente por parte do governo chinês de uma postura mais capitalista tem significado não só um maior protagonismo da China no panorama mundial, mas também um aumento significativo no nível de qualidade de vida dos chineses. Entre 1990 e 2000 o nível médio de qualidade de vida entre os moradores da zona rural da China aumentou 3 vezes; já nas zonas urbanos esse aumento foi de 4 vezes. Em termos objectivos, não existem dúvidas de que existiu um aumento significativo em termos económicos e sociais na qualidade de vida dos chineses.

No entanto, nessa mesma década a percentagem de chineses que se declararam como estando muito satisfeitos baixou de 28% para 12%. Em termos da satisfação com a vida, numa escala de 0 a 10, o nível médio de satisfação em 1990 era de 7.3 e em 2000 baixou para 6.5. Ou seja, apesar de objectivamente estarem melhor, os chineses sentiam-se menos satisfeitos. A que se deveu esta diminuição da satisfação perante um aumento objectivo da qualidade de vida?

Aquilo que levou a um decréscimo da satisfação entre os chineses foi o facto de, embora estivessem melhor em termos absolutos, estarem em termos relativos numa situação pior do que estavam em 1990! O aumento da qualidade de vida resultou também num aumento nas diferenças sociais entre pobres e ricos. Enquanto que agora um cidadão chinês de uma zona rural dispunha de mais dinheiro para se sustentar, a verdade é que em comparação com um concidadão de uma zona urbana estava numa situação ainda mais desfavorecida. E entre os habitantes das zonas urbanas acentuou-se a diferença entre pobres e classe média, e entre estes últimos e ricos.

Tal como aconteceu com os CEO norte-americanos, o problema dos chineses não está nas suas condições objectivas nem na comparação da sua situação actual com a do seu passado. O problema reside na comparação com outros grupos sociais que passaram a estar ainda melhor. Por melhor que estejamos actualmente, o nosso referencial – quando presente a aplicável claro está – serão outros grupos ou indivíduos que nos servem de referência. Por exemplo, um aumento salarial far-nos-á sentir melhor connosco e com o nosso emprego; mas se o nosso colega do lado tiver um aumento maior, ou o mesmo valor de aumento mas estando já a receber mais, o aumento que recebemos não irá ter um grande efeito na nossa moral.

As lições importantes a tirar do fenómeno da privação relativa são sobretudo para organizações e governos, numa chamada de atenção para não basearem os seus prognósticos apenas em dados objectivos, já que muitas vezes uma melhoria ou uma deterioração nesses valores podem não ser acompanhadas por aumentos ou diminuições ao nível da satisfação dos funcionários ou eleitores. Em termos individuais, uma boa forma de combater os sentimentos de privação relativa passa por modificarmos as nossas referências de comparação ou para nos limitarmos a comparar as nossas condições actuais com o nosso passado.

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