Falsas Memórias: Como as Nossas Recordações de Infância Podem ser Distorcidas

A memória é um dos aspectos mais fascinantes da mente humana, há mesmo quem defenda que não somos mais do que colecção das nossas memórias. Mas apesar de fascinante e incrivelmente versátil, a memória humana é manipulável, de uma forma diria até que ‘preocupante’.

Quase todos confiámos nas nossas memórias e somos capazes de descrever momentos do nosso passado como se tivéssemos a ver um filme e a descrevê-lo ao mesmo tempo. Acontece que muitas das nossas memórias são deturpadas por outros acontecimentos da nossa vida sem que estejamos conscientes dessas alterações. Mais interessante é o facto de ser possível implantar memórias falsas nas pessoas sem que estas duvidem da sua veracidade e ajam de acordo com as mesmas.

Um estudo levado a cabo por uma equipa de psicólogos australianos liderada por Kimberley Wade demonstrou ser possível criar falsas memórias através do uso de fotografias. Wade e os seus colegas pediram aos sujeitos da sua experiências que lhes fornecessem uma série de fotos da sua infância previamente a 3 entrevistas que cada sujeito teria de realizar. Os investigadores manipularam as fotos de forma a criarem uma fotografia dos sujeitos numa viagem de balão, algo que nenhum tinha experienciado enquanto criança. Nas entrevistas propriamente ditas, as fotografias fornecidas pelos sujeitos – incluindo a manipulada – eram apresentadas aos sujeitos para que estes contassem aos investigadores tudo aquilo que se recordassem da experiência retratada nas fotos.

Todos os sujeitos foram capazes de se recordarem dos eventos retratados nas fotos não manipuladas, mas incrivelmente um terço recordava-se da viagem de balão que nunca existiu! No final de cada entrevista, era pedido aos sujeitos que reflectissem sobre os eventos das fotos para as próximas sessões. No final da terceira entreivista, cerca de metade dos sujeitos recordava-se da viagem de balão sendo que em alguns casos as pessoas apresentavam uma recordação vívida do evento ao ponto de se recordar do local e do preço dos bilhetes!

Num outro estudo, uma equipa de investigadores conduzidas por Elke Geraerts estudou a forma como falsas memórias podem afectar o comportamento das pessoas. A equipa de investigação pediu aos participantes para preencher uma questionário sobre ‘comida e personalidade’ que depois seria introduzido num sistema informático que produziria um perfil das experiências alimentares dos sujeitos durante a infância. A uma parte dos sujeitos foi indicado que em alguma altura  da sua infância tinha ficado doentes devido à ingestão de uma sanduíche de ovo, facto que na realidade não tinha acontecido.

Umas semanas mais tarde os investigadores contactaram os participantes e verificaram que metade das pessoas a quem tinha sido dito que tinha ficado doentes após comerem uma sande de ovo recordavam-se desse acontecimento. Quatro meses mais tarde, os participantes foram de novo contactados para participarem num estudo diferente onde lhes era pedido para experimentarem e avaliarem uma série de alimentos e bebidas que lhes era colocado à escolha. Obviamente, tratava-se da continuação do estudo anterior.

Desta feita os investigadores estavam interessados em saber se os participantes que tinham acreditado na história da doença causada pela sandes de ovo, experimentariam menos dessas sandes do que aqueles que não haviam acreditado na história ou do que os particpantes do grupo de controlo a quem não havia sido dito nada acerca de um episódio de infância envolvendo um sanduíche de ovo. Os resultados demonstraram que a hipótese dos investigadores estava correcta!

Estes estudos vêm demonstrar que as nossas memórias são maleáveis e facilmente nos podem induzir em erro. Isto é também um facto relevante do ponto de vista do marketing e dos estudos de mercado já que nem sempre aquilo que os clientes dizem corresponde a factos reais – embora o sejam para os consumidores e influenciem o seu comportamento.

Imagem: party in the sky, by Dene’ (Seattle) Miles

2 thoughts on “Falsas Memórias: Como as Nossas Recordações de Infância Podem ser Distorcidas

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