Como o Uso do Nome Técnico de uma Doença Aumenta a sua Gravidade

Os médicos são conhecidos pela sua péssima caligrafia e pelo uso de termos técnicos na descrição de doenças e sintomas que escapam à compreensão da grande maioria dos seus utentes. Embora se perceba o porquê do uso da terminologia correcta para cada doença, a verdade é que o uso dessa mesma linguagem técnica influencia a percepção que os doentes e a sociedade têm das várias enfermidades podendo mesmo daí resultar um exagero da gravidade associada a cada doença.

Esta possibilidade foi atestada num estudo levado a cabo por um grupo de investigadores liderados por Meredith Young, do Departamento de Psicologia, Neurociência e Comportamento da McMaster University no Canadá. Os resultados do estudo demonstraram que quando é dado a uma certa condição um termo médico mais técnico, a mesma é considerada como sendo mais grave, mais provável de se tratar de uma doença e de ser mais rara – e no caso das doenças, a raridade está normalmente associada a um maior risco.

Foi pedido aos participantes no estudo para avaliarem uma série de enfermidades quanto à sua gravidade, ao facto de corresponderem de facto a uma doença e à sua prevalência na população. Entre as enfermidades escolhidas para serem avaliadas, havia uma distinção entre enfermidades que foram recentemente ‘medicalizadas’, isto é, foi-lhes atribuído um nome técnico quando já possuíam um nome ‘popular’ e enfermidades que já possuíam um nome técnico e um nome ‘popular’ estabelecido. Entre as enfermidades recentemente ‘medicalizadas’ encontrámos, por exemplo, a disfunção eréctil (nome ‘popular’: impotência) ou a alopécia androgénica (nome ‘popular’: calvície); enquanto nas enfermidades já estabelecidas foram colocadas doenças como enfarte do miocárdio ou acidente vascular cerebral que são também conhecidas por termos populares, como ataque do coração ou trombose.

Os resultados das avaliações feitas pelos sujeitos demonstraram que o uso de termos técnicos para as enfermidades recentemente ‘medicalizadas’ tornam-nas, aos olhos do público, mais prováveis de serem consideradas como uma doença, de serem avaliadas como mais graves e de serem vistas como sendo raras. Nas enfermidades com nomes técnicos e ‘populares’ já estabelecidos socialmente, essa diferença não se verifica.

O que se retira deste estudo? Que o uso de termos técnicos contribui para a percepção que o público tem de uma doença, o que pode ser útil como prejudicial. Do ponto de vista positivo, o uso destes termos permite que condições que comportam estigmas sociais (como a impotência) sejam encaradas sob uma nova luz e que mais pessoas procurem tratamento. Em termos negativos, o uso despropositado destes termos pode contribuir para um crescente estado ‘hipocondríaco’ nas sociedades actuais.

Uma forma de tornar a compreensão dos utentes mais simples passa pelo uso dos dois termos por parte dos médicos ou a adopção do termo mais ‘popular’ nas comunicações com os utentes dos hospitais, centros de saúde e consultórios sempre que isso não leva a uma desvalorização de uma condição de saúde. Mas existe também um lado económico e de status relacionado com o uso de jargão técnico que importa não desvalorizar e que irei abordar amanhã.

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2 thoughts on “Como o Uso do Nome Técnico de uma Doença Aumenta a sua Gravidade

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