Encefalomielite Miálgica – ou como o Nome da Doença Afecta os Lucros dos Laboratórios e o Prestígio Social dos Médicos

Ontem abordei a forma como o uso do nome técnico para uma enfermidade afecta a percepção que as pessoas têm da mesma. Nomeadamente, essa enfermidade é mais vista como sendo uma doença, é considerada como sendo mais grave e percebida como sendo mais rara quando é usado o seu nome técnico do que quando se usam termos mais populares para a descrever. Este fenómeno tem implicações económicas e sociais na forma como as enfermidades são encaradas, mas também nos proveitos daí retirados por parte de médicos e laboratórios médicos.

Começando precisamente por este último ponto, quanto maior for a percepção de gravidade de uma doença, maior será o sentimento de necessidade e de urgência por parte dos utentes em recorrer à medicação necessária. Daí retiram dividendos económicos os laboratórios médicos já que aumentam a receptividade do mercado para os seus produtos. O caso da disfunção eréctil é um exemplo prático deste tipo de situação: a mudança de nomenclatura aumentou a predisposição psicológica para procurar ajuda e medicação para o problema, o que não acontecia por pressões sociais quando se falava somente em impotência.

Isso aumenta o número de empresas e clínicas que providenciam serviços e produtos para combater o problema. Claro que há o lado positivo deste facto que importa não esquecer: o maior número de pessoas disponíveis para efectuar uma acção capaz de melhorar a sua qualidade de vida! O estigma social da impotência – que remetia para um problema pessoal – foi substituído pela disfunção eréctil que reporta a uma enfermidade – ou seja, algo fora do controlo da pessoa – e como tal é menos agressivo para a auto-imagem da pessoa.

Do ponto de vista social, o uso do jargão técnico por parte dos médicos actua como forma de aumentar o prestígio da classe profissional. Não quero com isto dizer que os médicos o façam apenas e só por questões de ‘vaidade’ profissional; fazem-no porque é correcto fazer e porque foi assim que foram ‘treinados’. O aumento do prestígio social é apenas um efeito secundário do seu uso.

Esta, aliás, não é uma técnica exclusiva da classe médica. Praticamente toda a gente a usa quando se refere a termos relacionados com a sua profissão de forma a aumentar a importância do que faz aos olhos – ou melhor, aos ouvidos – dos outros. Um caso simples e com o qual praticamente toda a gente lidou é o uso por parte dos mecânicos de automóveis do uso de terminologia específica para ‘criar’ problemas maiores do que aquilo que realmente são.

O grande problema que este fenómeno traz é precisamente a disseminação de informação errónea ou exagerada pela opinião pública. O que leva a maiores preocupações, a sentimentos de pânico, ao aumento com as despesas relacionadas com a saúde (se justificadas obviamente que isso seria positivo) e à proliferação de ‘vendedores de banha da cobra’ que se alimentam da ignorância das pessoas. O melhor a fazer é, da parte dos médicos e das autoridades estatais mas sem esquecer a comunicação social, associar os nomes técnicos aos nomes populares para que a informação seja correctamente compreendida pelos cidadãos. É que quando se fala no aumento de casos de encefalomielite miálgica é natural que se pense num vírus, mas na realidade estamos a reportar-nos a casos de síndrome de fadiga crónica.

3 thoughts on “Encefalomielite Miálgica – ou como o Nome da Doença Afecta os Lucros dos Laboratórios e o Prestígio Social dos Médicos

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  3. nini

    Você tem noção do quão pejurativo o termos “Síndrome de Fadiga Crónica” é, sequer? Tem noção do quão redutor é; não só dando a entender que esta doença extremamente incapacitante nada mais é do que um caso de “fadiga crónica” como falha, por completo, em captar a gravidade da mesma? Que levou e continua a levar a chacota pública, esta doença, que, afinal, está associada a um retrovírus da família do HIV??? Descoberta esta que já levou vários países a banirem a doação de sangue por pacientes com esta patologia por haver suspeitas de contágio? E escreve que o termos Encefamolielite Miálgica é, de certa, forma enganoso: usa-se a semântica para proveito próprio.

    E O QUE TEM A DIZER DO TERMO RIDÍCULO: SÍNDROME DE FADIGA CRÓNICA? É fácil falar, escrever, opinar quando não se sofre daquilo do qual, tão facilmente, opinamos.

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