Como os Medicamentos Genéricos Deviam ser Promovidos

Aproveitando os dois posts anteriores, hoje irei abordar a publicidade dos medicamentos genéricos. Desde que a venda deste tipo de medicamentos foi permitida em Portugal que os laboratórios responsáveis pela sua produção têm tentado ‘vender’ a ideia de que os seus medicamentos são tão bons e eficazes como os medicamentos de ‘marca’. Já tomei alguns medicamentos genéricos e até ver todos resultaram satisfatoriamente e sem efeitos secundários, como aliás seria de esperar já que são aprovados para venda ao público.

No entanto esta publicidade assenta numa lógica errada: a de que o consumidor final tem uma palavra a dizer na escolha dos medicamentos! Não digo que não tenha, mas a verdade é que tem muito menos peso na decisão final do que os laboratórios que comercializam medicamentos genéricos gostariam.

Em primeiro lugar, as pessoas não escolhem os medicamentos que toma. Ou seguem aquilo que os médicos escrevem nas suas prescrições, ou no caso em que não é necessária prescrição médica compram aquilo que já estão habituados a tomar para situações similares ou procuram o aconselhamento dos farmacêuticos. Em segundo, apesar de estarmos em tempos de crise, a saúde é algo com o qual as pessoas não estão dispostas a poupar. Existem aliás estudos que provam que quanto mais caro é um medicamento, maior é o alívio que os doentes sentem (mais sobre isto amanhã).

Como tal, e embora a quota de mercado esteja a subir e eu espere que no próximo ano a procura seja ainda maior, a promoção deste tipo de medicamentos para o público é algo que tem um resultado não muito eficaz. Sobretudo quando algumas das campanhas não contribuem em nada para mudar o cenário como é o caso da publicidade que a Generis começou por exibir em Portugal.

Se bem se recordam, o anúncio apresentava um suposto português a desfrutar de uma sauna num país escandinavo (a Finlândia se não estou em erro) seguido de um banho gelado em pleno Inverno. No final era exibida a percentagem de portugueses que usavam medicamentos genéricos (5%) comparada com a dos finlandeses (assumindo que era de facto na Finlândia) que apresentava um valor bem mais elevado. A ideia do anúncio é simples: os escandinavos têm um clima que proporciona maior número de doenças do género da gripe do que os portugueses, e confiam nos medicamentos genéricos para lidar com os sintomas.

Este anúncio contém 3 erros: 1) assume que os portugueses se comparam com os finlandeses; 2) que a saúde dos finlandeses suporta-se nos medicamentos genéricos; e 3) apresenta prova de que os portugueses não confiam nos genéricos.

No primeiro erro, não é lícito que os portugueses se comparem com os finlandeses até porque em termos culturais partilham apenas o facto de estarem no mesmo continente. No caso do segundo erro, é perfeitamente possível que os espectadores assumam que a saúde dos finlandeses se deve sobretudo ao maior nível de vida desfrutado naquele país; mais dinheiro equivale a mais saúde uma associação muito simples de ser feita e que tem suporte na realidade empírica com que as pessoas lidam no dia-a-dia.

Mas o maior erro deste anúncio é o de indicar que apenas 5% dos portugueses usam genéricos! Isto quer dizer que a grande maioria dos portugueses preferem os medicamentos de ‘marca’. Ou seja, ao invés de demonstrar que não faz sentido não recorrer aos genéricos, este anúncio reforça a ideia de que é preferível usar medicamentos mais caros porque é isso que a maioria da população portuguesa faz, e normalmente a maioria está certa!

O que os laboratórios que comercializam medicamentos genéricos devem tentar fazer é promover os seus produtos junto dos profissionais que os recomendam aos consumidores. Embora compreenda que isso não seja propriamente fácil. No que toca a anúncios publicitários, o ideal é mostrarem portugueses que usam de facto medicamentos genéricos e que estão duplamente satisfeitos: estão de boa saúde e gastam menos dinheiros! Se quiserem apresentar números, é melhor dizer que 500 mil portugueses já usam genéricos do que dizer que 5% da população o faz.

O ideal seria conseguir que algum médico, ou ex-médico, conceituado promovesse o uso de medicamentos genéricos. Mas para além de não acreditar que algum consentisse em tal, tenho quase a certeza que isso iria contra os estatutos da Ordem dos Médicos e como toda a razão. Na falta de médicos reais, os laboratórios de medicamentos genéricos podem sempre recorrer a algo ainda melhor: Hugh Laurie!

2 thoughts on “Como os Medicamentos Genéricos Deviam ser Promovidos

  1. Nuno Mendes

    Na verdade, mudanças subitas de temperatura, como na publicidade dos finlandeses, são optimas para matar o vírus da gripe. Só pequeno aparte.

    Responder

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