Sinistralidade Rodoviária: A Mentalidade de Fuga à Multa Portuguesa

Voltando ao tema de ontem, abordo hoje uma questão fundamental na problemática da sinistralidade rodoviária: a mentalidade dos portugueses! Não me irei focar em questões como o excesso de velocidade ou as manobras perigosas, até porque cada uma destas questões mereceria mais do que um post a elas dedicado. Para hoje foco a mentalidade portuguesa no que à condução sob o efeito do álcool diz respeito.

Nos últimos anos assistiu-se a um apertar do cerco das autoridades no que às infracções ao código da estrada diz respeito. Mais policiamento, mais operações, multas mais pesadas… Ao que tudo indica, parece que estas medidas têm resultado na diminuição do número de acidentes e de vítimas, o que é sempre positivo.

O problema é o facto de que estas medidas vão contribuindo para alterar o comportamento dos condutores portugueses mas não as suas atitudes. A curto prazo isto nem sequer é um problema porque se consegue obter os objectivos pretendidos. Mas ao alterar-se apenas a componente comportamental corre-se o risco de mais tarde o voltarmos aos cenários anteriores com crescimento do número de acidentes.

A mentalidade de uma grande parte dos condutores portugueses no que toca à condução sob o efeito do álcool passa pelo evitar a multa e não por uma consciencialização do perigo que isso representa para si e para os outros. A aplicação de multas actua como uma forma de condicionamento operante: aplica-se um dado estímulo (a multa) no sentido de diminuir a frequência de um dado comportamento (conduzir sob o efeito do álcool). A curto-médio prazo isto resulta quer por aplicação directa (o condutor recebe uma multa) quer por contágio (o condutor conhece casos de pessoas que receberam multas), levando a uma diminuição real do comportamento em questão.

Mas, no momento em que a punição for retirada ou o seu efeito for diminuído, o seu potencial para condicionar o comportamento desaparece. A própria percepção acerca da probabilidade de receber a punição altera o seu poder de condicionamento comportamental. Uma pessoa que avalie como diminutas as probabilidades de encontrar uma Operação STOP da Brigada de Trânsito estará mais predisposta a conduzir embriagada.

Não quero dizer com isto que as multas são ineficazes. Está mais do que provado que funcionam. Agora, o seu efeito a longo prazo não é fiável e está dependente de variadas condicionantes para actuar com eficácia. É necessário fazer algo mais.

O que realmente é necessário fazer – adicionado ao uso de multas cada vez mais punitivas sobretudo para reincidentes – é alterar as atitudes dos condutores portugueses. Uma tarefa nada simples, que exige tempo e verbas, mas que é fundamental para que se consiga alterar o panorama negro das estradas portugueses que se verifica anualmente. Importa procurar consciencializar os portugueses orientando-se para uma perspectiva cívica e não meramente punitiva.

Para amanhã ficarão algumas sugestões da minha parte sobre o que é possível fazer para promover esta mudança.

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