Para Diminuir o Número de Pequenos Crimes, Limpe o Graffiti das Paredes

Quem já leu o livro ‘Freakonomics’ de Steven Levitt e Stephen Dubner – quem não leu faça o favor de arranjar um exemplar e ler – estará familiarizado com a teoria das ‘janelas partidas’. Para quem não conhece a teoria das janelas partidas defende que uma forma de combater a criminalidade numa dada zona passa por um combate eficaz aos pequenos actos de vandalismo. De acordo com esta teoria, a presença de sinais de vandalismo levaria potenciais perpetradores de novos actos a assumir que os mesmos passariam incólumes.

O exemplo tradicional para demonstrar a eficácia deste modelo é o da cidade de Nova Iorque no início dos anos 90. O mayor Rudolph Giuliani e a sua equipa seguiram a preceito as sugestões dos autores da teoria – James Wilson e George Kelling – implementando uma política de tolerância zero para com a pequena criminalidade e actos de vandalismo, daí resultando uma diminuição nos índices de criminalidade em geral dentro da Big Apple.

Embora ainda haja dúvidas quanto à causalidade entre a política de combate a pequenos crimes e a diminuição da criminalidade mais grave, novos estudos vêm ajudar a confirmar a ligação entre o vandalismo e a pequena criminalidade. Mais especificamente, uma série de novos estudos demonstrou que a presença de sinais de vandalismo em termos contextuais aumenta o número de pequenos crimes.

O estudo foi levado a cabo por investigadores da Universidade de Groningen na Holanda, que pretenderam fazer um teste empírico à teoria formulada por Wilson e Kelling em 1982. Em uma das experiências levadas a cabo, os investigadores deixaram num local público um envelope numa caixa de correio do qual estava saliente uma nota de 5 €, sendo que a nota foi ‘levada’ por 13% das pessoas que passaram a zona. No entanto, quando a caixa de correio tinha pinturas de graffiti a percentagem de pessoas que retiraram a nota passou para 27%. Para além do graffiti, também o lixo no chão perto da caixa de correio aumentou a taxa de pessoas que levaram a nota de ‘empréstimo’, sendo neste caso de 25%.

Numa outra experiência foram colocados dois sinais junto de um portão: 1) a indicar que as pessoas não deviam passar por ali; 2) a indicar que não era permitido acorrentar bicicletas às grades do portão. Apesar das indicações, 27% dos transeuntes passaram pelo portão. No entanto, quando uma bicicleta estava acorrentada às grades, essa percentagem passou para 82%.

Estes dados vêm dar mais força à teoria – o que é diferente de a confirmar – demonstrando que sinais de vandalismo ou de desrespeito por uma dada norma levam a um aumento da pequena criminalidade. Um forte factor influente nestas estatísticas parece-me ser a norma da validação social: os sinais de vandalismo demonstram aos transeuntes que os ‘outros’ desrespeitam as normas e como tal é legítimo fazê-lo. Quanto maior forem os sinais de que o vandalismo ocorre e que passa de forma impune – o que é inferido pelo facto de não se proceder à remoção dos estragos – maior será a tendência para as pessoas quebrarem as normas.

Não é no entanto evidente, pelos menos não com estes dados, que esta ligação se mantenha a um nível de criminalidade mais elevado. Embora me pareça que a percepção de como a criminalidade em geral é lidada pelas autoridades influi de certa forma no comportamento de potenciais perpetradores de crimes graves, este tipo de crimes é afectado por mais variáveis (como o contexto económico, a dependência de drogas, ou das situações passionais) para se afirmar que um ‘aperto’ a sinais de vandalismo possa resultar numa diminuição da criminalidade greve. Assumir isso é levar a teoria a dar um passo maior do que as suas pernas (no caso representadas pelos dados existentes).

Todavia, estes dados merece que organismos públicos, forças de segurança e mesmo empresas os estudem e os procurem perceber porque reflectem o mecanismo elicitador de um determinado tipo de comportamento anti-social que é do interesse de todos erradicar.

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One thought on “Para Diminuir o Número de Pequenos Crimes, Limpe o Graffiti das Paredes

  1. Marcus Vinicius

    Olá Bruno, não consegui achar no seu blog um link ou informação para mensagens ao autor, por isso venho através de um comment mesmo te fazer um pedido.

    Sou estudante de psicologia e iniciei há algum tempo uma pesquisa sobre agressividade, o link é http://ww3.unipark.de/uc/agressividade . E eu gostaria que, se possível, você publica-se no seu blog para me ajudar a aumentar o grupo experimental.

    Obrigado pela sua ajuda.

    att,
    Marcus Vinicius

    Responder

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