O Mito de que 40% dos Tweets São Sobre Nada

twitter_nadaA Pear Analytics realizou um estudo no qual analizou o perfil das mensagens enviadas através do Twitter. Para isso usou uma amostra de 2.000 mensagens e classificou-as de acordo com a seguinte tipologia: notícias, spam, auto-promoção, conversa da treta (acho bem que é uma melhor tradução para “pointless babble”), conversa e reencaminhamento, os retweets. A análise demonstrou que cerca de 40,55% dos tweets analisados eram “conversa da treta”! Esse número tem sido usado desde então como uma verdade absoluta para demonstar que o Twitter não serve para nada. Ainda ontem no debate sobre “Redes Sociais e Política” esse valor voltou a ser apontado, em contraste com a percentagem de notícias encontradas nesses 2.000 tweets: apenas 3,60%!

Criou-se então este mito que na realidade não é mais do que um equívoco de classificação por parte da Pear Analytics, associado à falta de rigor e preguiça de muita gente em ler o estudo original e não apenas olhar para os números. Passemos à desmistificação deste mito.

Começando pelos equívocos da Pear Analytics, a classificação daquilo que é notícia em termos de tweets é, no mínimo, conservadora. Para o estudo em questão apenas tweets enviados por perfis pertencences aos mainstream media eram considerados como notícias. Fontes como Techcrunch ou Mashable não cabiam neste grupo restrito. Basicamente: bots de jornais e televisões = notícias; blogs, citizen journalism e afins = outra coisa qualquer! Se eu estiver presente quando um determinado facto acontecer e lançar um tweet sobre o mesmo, isso não é considerado notícia. Mas se alguém de um jornal ou televisão vir esse tweet, colocar uma notícia no site e o bot lançar no Twitter, já é notícia!

Mas o principal equívoco da Pear Analytics está na escolha do termo “conversa da treta” (“pointless babble”) para descrever tweets perfeitamente normais como o exemplo que os próprios dão no white papper de ‘Estou a comer uma sande’! Essa frase só é “conversa da treta” para quem não tem qualquer interesse naquilo que aquela pessoa tem para dizer. Obviamente que os analistas da Pear vão considerar este tipo de frases como irrelevantes, mas isso não quer dizer que os contactos daquela pessoa sejam da mesma opinião. E o mais provável é que quem escreve que está a comer uma sande o faça com os seus contactos em vista e não analistas. Mas para perceber melhor isto, aconselho a leitura deste post de Danah Boyd uma das pessoas que mais tem investigado as redes sociais e o comportamento dos seus utilzadores.

Mas é preciso ter em conta que para a Pear Analytics existe uma diferença entre “conversa da treta” e conversa a sério: o uso de @ indicando que nos estamos a dirigir a alguém. Portanto, se alguém escrever “Estou a comer uma sande” está a fazer “conversa da treta”. Mas se o tweet for “@brunoribeiro Estou a comer uma sande” então já é conversa a sério.

Passando agora para a preguiça de ler e interpretar o estudo original que assolou muita gente. Bem sei que é mais simples ver o resumo feito por outrem, mas se essa pessoa não se deu ao trabalho de analisar os dados e aquilo que faz parte do estudo, existe a forte probabilidade de nos basearmos em conclusões precipitadas e sensacionalistas. O post no blog da Pear Analytics sobre o estudo tem o título “Twitter Study Reveals Interesting Results About Usage” já agora.

Começando com um simples exercício aritmético: se cerca de 41% dos tweets são “conversa da treta” (vamos esquecer que esta classificação é absurda) então 59% não são “conversa da treta”! Se retirarmos os cerca de 4% que correspondem a spam, então temos 55% de tweets – a maioria portanto – como tendo valor! Mas vende mais dizer que 41% dos tweets são sobre nada do que dizer que a maioria dos tweets tem algum tipo de valor.

Se tivessem lido com atenção o estudo da Pear Analytics, teriam verificado que na análise os autores indicam que se o estudo usasse um número maior de tweets ou durasse mais tempo, seria provável que as diferenças entre as categorias “conversa da treta” e conversa (não da treta, ou seja que iniciem com @) se anulassem ou se invertessem. A margem de erro deste estudo estará entre os 2% e os 3% (já agora é uma falha no estudo não indicarem a margem de erro dos dados). Sendo a diferença entre estas duas categorias de 3 pontos percentuais (60 tweets) é bem provável que tal aconteça.

Concluindo, o estudo tem alguns insights interessantes mas algumas lacunas óbvias. A Pear Analytics promete lançar este estudo trimestralmente pelo que será interessante verificar as variações. No fundo, este mito iniciou-se porque alguém pegou no lado sensacionalista dos dados para o divulgar, e a maior parte das pessoas e dos órgãos de divulgação limitou-se a seguir a mesma bitola sem haver o cuidado de analisar o estudo original ou de perceber se havia ou não erros de avalição por parte da Pear Analytics. A criação deste mito demonstra a facilidade com que uma notícia se espalha pela web sem haver o cuidado de a analisar convenientemente. Por muito que a democratização da web seja fundamental e corresponda a uma revolução, as possibilidades para que factos errados sejam tidos como verdades confirmadas também aumentou exponencialmente. O remédio para isto é simples: menos preguiça, ler os dados originais e procurar informação em várias fontes!

Advertisements

2 thoughts on “O Mito de que 40% dos Tweets São Sobre Nada

  1. Pingback: Twitter Trackbacks for O Mito de que 40% dos Tweets São Sobre Nada « Dissonância Cognitiva [dissonanciacognitiva.wordpress.com] on Topsy.com

  2. Pingback: O mito sobre a “inutilidade”do Twitter – i9 Business Mídias Sociais

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s