Médicos Insensíveis às Dores dos Pacientes

A empatia é uma característica essencial para o funcionamento social dos seres humanos. Perceber as emoções e estados de espírito dos outros e sermos capazes de nos colocarmos no seu lugar é fundamental nas nossas interacções sociais. É por isso que quando vemos alguém com dores, a rede neuronal que activa as sensações de dor no nosso corpo é activada e sentimos essa dor como se fosse nossa. A menos que sejamos médicos. Nesse caso, a capacidade de experienciarmos a dor dos outros é mais reduzida.

Um estudo levado a cabo na Universidade de Chicago analisou as respostas cerebrais (através de EEG) de médicos e de um grupo de controlo a imagens de pessoas de pessoas a serem picadas com agulhas ou a serem tocadas por um cotonete. Quando uma pessoa observa dor em outras pessoas, o seu EEG apresenta uma activação inicial numa componente frontal após 110ms – que se pensa representar um sentimento automático de empatia – seguida de uma outra activação de uma componente parietal, mais central, após 350ms, que representa a avaliação consciente daquilo que se observou.

Como seria de esperar, os sujeitos do grupo de controlo apresentaram uma resposta mais elevada às imagens de agulhas do que às de cotonetes. No entanto, tal não aconteceu com o grupo de médicos que apresentaram respostas similares aos dois tipos de imagens. Pode-se dizer que os médicos demonstraram estar dessensibilizados a imagens de dor nos outros. Esta aparente falta de empatia acaba por ser uma resposta adaptativa por parte dos médicos uma vez que, desta forma, é possível uma maior focalização nos problemas em si evitando a possibilidade de sentimentos de pânico perante situações de urgência médica.

Por outro lado, a falta de empatia pode ser um problema para a relação médico-paciente na medida em que este último se pode sentir ignorado e a sua dor e sofrimento minimizado. No livro Blink, Malcolm Gladwell apresenta dados de estudos que demonstram que mais do que negligência médica, é a qualidade da relação entre médico e paciente que mais influencia a possibilidade de um paciente processar um médico. Mais de que os resultados práticos da intervenção médica, é a atenção prestada pelo médico aos problemas do paciente que mais determina a forma como os pacientes avaliam o desempenho médico.

Portanto, apesar da capacidade que os médicos têm de se “desligarem” das dores dos seus pacientes ser útil para o desempenho da sua tarefa, pode ser prejudicial para o relacionamento entre estes e os seus pacientes; sendo que a percepção dos pacientes da qualidade dos cuidados que recebeu influenciar também os resultados destes.

Imagem: Listening to brain activity?, by deadstar 2.0

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2 thoughts on “Médicos Insensíveis às Dores dos Pacientes

  1. Bruno Miguel

    Então, aquilo na séria Anatomia de Grey é falso. 😦

    Parvoíces à parte, deve ser por isto que uma médica do serviço de urgências do centro de saúde da minha zona ficou muito indignada por eu me ter deslocado ao serviço com várias dores de estômago, cabeça e corporais em geral. Faltou-lhe a empatia…

    Responder

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