Regras do Facebook Continuam a Passar ao Lado dos Portugueses

Os exemplos de uso indevido das plataformas de social networking por parte de empresas e instituições abundam, de tal forma que apontar um único caso parece pouco mais do que uma acção motivada por outras questões. Embora não deve ser caso específico, a quantidade de casos portugueses demonstra uma falta de cultura digital preocupante; ou por outro lado, uma chico-espertice não menos merecedora de reflexão.Na última semana dois casos de instituições públicas, ambas da cidade do Porto vieram uma vez mais demonstrar a falta de apetência das instituições nacionais para lidar com as novas plataformas de comunicação online.

No passado dia 17, o perfil da Câmara Municipal do Porto desapareceu do Facebook (via Miguel Albano), levando consigo todos os “amigos” acumulados sendo garantida a impossibilidade de recuperar o conteúdo do referido perfil. O site da edilidade foi rápido a notificar os cidadãos de sucedido, deixando a nota de se tratar de uma acção de boicote, orquestrada para impedir a comunicação da CM Porto com todos os seus cinco mil “amigos”. Alguns excertos do comunicado, intitulado “Facebook da CMP foi silenciado” que pode ser lido aqui:

A página da Câmara Municipal do Porto no Facebook, instalada em finais de 2009, a partir do site da autarquia, foi surpreendentemente desactivada nas últimas horas, por desconhecidos. (…)

Recorde-se que a página da Câmara Municipal do Porto, agora “silenciada”, somava actualmente cerca de 5 mil seguidores, tendo já atingido o limite máximo de amigos para este tipo de comunicação, através da qual a CMP fazia a divulgação das suas principais actividades e comentários públicos ou mesmo de âmbito político.(…)

Em face desta situação, suspeita-se que possa estar em causa uma tentativa de boicote a um dos suportes de comunicação directa da autarquia com maior sucesso junto dos cibernautas o que, a confirmar-se, configuraria uma prática de pirataria informática, ainda pouco usual neste tipo de ferramenta. (…)

Aparentemente o próprio Facebook – a acreditar no comunicado da CM Porto – ficou surpreendido com o caso e não encontra explicação para o mesmo. Uma pesquisa nos próprios termos de serviço da plataforma era capaz de ajudar na detecção do problema, como o Daniel Caeiro aqui aponta:

Se calhar ficaram sem “página” porque não era uma página mas sim um perfil e como tal violava os Termos e Condições do Facebook.

Para além da utilização errada de um perfil para representar uma instituição ser contra os termos de utilização do Facebook, como já aqui expliquei a propósito do caso da Mitsubishi, e como fica bem patente no comunicado da CM Porto, a utilização de perfis tem desvantagens para as instituições, desde logo o limite de 5 mil contactos imposto pela plataforma que não existe no caso das Páginas. E se estavam a usar um perfil, se tivessem feito um backup dos dados não tinham problemas em recuperá-los.

Entretanto, o “perfil” da CM Porto já regressou ao Facebook com a seguinte nota:

O Facebook decidiu activar novamente o perfil da Câmara Municipal do Porto temporariamente. Todos aqueles que nos seguem através do Facebook, poderão por isso continuar a fazê-lo, agora numa nova página, que está ainda a ser criada, mas que tem a vantagem de abarcar uma maior número de seguidores. Daremos mais novidades em breve.

Lá se foi a teoria da conspiração! Afinal o problema era evidente e está agora a ser corrigido. A CM Porto não só demonstrou a sua incompetência digital, como acabou por perder uma boa oportunidade para estar “calada” ao querer atribuir o desaparecimento do perfil a uma acção de boicote externo. Seria interessante saber como o caso está a ser tratado internamente, porque fazer cair no ridículo a edilidade portuense deveria ter algumas consequências, nem que fosse um pedido de desculpas no site pelo comunicado absurdo.

Mas os maus exemplos nunca estão sós. Passando agora para outra instituição da cidade: o Metro do Porto. Neste caso, existe uma página com mais de 10.000 seguidores; uma página onde constantemente os termos de utilização do Facebook no que respeita a promoções são desrespeitados.

A Metro do Porto realiza passatempos em parceria com a Porto Editora cujo prémio são exemplares de livros. Uma acção em si louvável, não fosse a forma como é levada a cabo ir contra as normas. A mecânica dos passatempos é simples: é colocada uma questão no mural da página e os primeiros seguidores a responderem correctamente à mesma vencem. O nome dos vencedores é publicado nos comentários também. Vejamos aquilo que as Promotion Guidelines do Facebook dizem a este respeito:

3.1 You will only administer the promotion through an application on the Facebook Platform, as directed by us.
3.2 You will only allow users to enter the promotion in the following locations on Facebook:
3.2.1 On the canvas Page of an application on the Facebook Platform.
3.2.2 On an application box in a tab on a Facebook Page.

Mas para deixar bem claro, nas mesmas Guidelines são dados exemplos concretos tais como:

You cannot: Condition entry in the promotion upon a user providing content on Facebook, such as making a post on a profile or Page, status comment or photo upload.
You cannot: Notify winners through Facebook, such as through Facebook messages, chat, or posts on profiles or Pages.

E isto sem entrarmos em pormenores sobre questões de regulamentos – não existente – e público-alvo do passatempo. Administrar uma página de uma organização no Facebook – ou em qualquer outra plataforma – obriga a que haja um conhecimento das regras de utilização dessa mesma plataforma. No caso da Metro do Porto, nem o desconhecimento pode ser alegado porque por duas vezes já os alertei para o facto. Obviamente, não obtive resposta. O que não é caso único, diga-se, já que na mesma semana o Armando Alves relatou experiência similar com a Pepsi Portugal.

O amadorismo – muitas vezes levado a cabo por profissionais – pode explicar muitos destes casos, mas não pode ser desculpa para os mesmos. Instituições e empresas que querem estar presentes nas redes sociais têm de perceber que não podem entregar a administração dessa presença a pessoas que não conhecem as regras básicas de utilização das mesmas. A CM Porto foi exposta ao ridículo. A Metro do Porto arrisca-se a que um dia em que alguém acorde mal disposto ficar sem página no Facebook. Se não existe verbas para contratar apoio externo, para colocar alguém dedicado ao serviço, ao menos que se aposte na formação dos profissionais que irão gerir essas presenças. Nestes casos, essa formação equivale a 20 minutos a ler as regras de utilização do Facebook.

6 thoughts on “Regras do Facebook Continuam a Passar ao Lado dos Portugueses

  1. Pingback: Apoio ao Cliente via Facebook: Boa Ideia, Má Execução | Dissonância Cognitiva

  2. Pingback: Episódio 15 – Invisível | Patrulha.TV

  3. Joana Ribeiro

    Concordo com o artigo de trás para a frente e de frente para trás.
    Só fiquei com uma dúvida: como é que se faz um back-up para não perder os contactos que se tem no perfil?

    Obrigada

    Responder

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