Realidade e Percepções

A Royal Statistical Society britânica divulgou recentemente um estudo em que demonstra cabalmente o desfasamento existente entre as percepções dos britânicos e a realidade social do país. Tendencialmente os britânicos julgam que o seu país está pior do que na realidade acontece, isto em temas como criminalidade, corrupção, imigração que são, na sua essência, temas sociais bastante fracturantes a nível político.

Por exemplo, enquanto que mais de metade dos inquiridos não acredita que os índices de criminalidade estejam a baixar, a verdade é que os mesmos diminuíram em mais de 50% nos últimos 15 anos. E enquanto que os britânicos acreditam que os casos de crimes violentos têm aumentando, a verdade é que os mesmos têm diminuído progressivamente. A gravidez adolescente apresenta um caso ainda mais gritante deste desfasamento: os britânicos estimam que 15% das raparigas com menos de 16 anos engravidam precocenemente, quando na realidade o valor real é de 0,6%.

Seria fácil classificar estes dados como falta de interesse ou do conhecimento por parte dos britânicos, mas duvido que os resultados fossem diferentes em Portugal ou na grande maioria dos países. As percepções são criadas com base em informações que chegam de múltiplas fontes, nem sempre as mais credíveis, e muitas vezes de uma forma fracturada. Estando nós a viver num mundo hiper-conectado, em que o acesso à informação é praticamente ilimitado e imediato; estamos também num momento em que a capacidade de absorção de informação e de análise e classificação das fontes é manifestamente inferior às necessidades.

Isto obriga a que o trabalho de comunicação seja mais exaustivo e que a criação de narrativas assuma uma preponderância cada vez maior. Dando como exemplo o actual Governo Português – e sem entrar em discussões sobre as políticas e decisões tomadas – fica claro que o trabalho de comunicação foi indevidamente negligenciado e que o controlo da narrativa fugiu completamente das mãos do Governo. Um dos principais erros – senão mesmo o principal – deste executivo tem sido a incapacidade de explicar aos cidadãos o porquê de certas medidas, qual o racional das mesmas e quais os resultados esperados das mesmas. Uma falha crucial que depois resulta em culpabilizações do estado do tempo.

Assumir que o público – do ponto de vista político ou empresarial – eventualmente irá conhecer os dados reais e aceitar os mesmos como factos, é um erro crasso e demonstram um total desconhecimento de como funciona o ser humano. A percepção é sempre mais forte do que a realidade.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s