Porto: Nova Marca, Mas Qual a Identidade?

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A cidade do Porto apresentou recentemente a sua nova “marca”, entenda-se nova linha gráfica da cidade, porque uma Marca, sobretudo quando se refere a território, é definida pelas percepções dos seus interlocutores. Muito se falou sobre a questão do ponto e sobre o seu significado, se reflectia uma afirmação – como indicam os seus criadores – que estabelece a ausência de necessidade para explicar algo mais para além da palavra “Porto”, ou se, por outro lado, reflecte uma cidade fechada sobre si e que se enquadra como produto acabado.

Luís Paixão Martins, interpreta o ponto final, como a conclusão e o fecho sobre si mesmo da cidade, e contrapõe – de forma muito interessante – que Lisboa, se resolvesse assumir um sinal de pontuação para a sua identidade, deveria escolher os dois pontos, que representam a abertura de um diálogo e multiculturalidade. Já o Fernando Moreira de Sá entende que a única sinalética que se adapta ao Porto é o ponto de exclamação, que é o que melhor retrata a vida da cidade e as suas pessoas.

Como diz, e bem, o site da Câmara Municipal do Porto (cuja página online espero que evolua rapidamente para algo bem diferente do que neste momento está visível):

O Porto é incomparável, incontornável. O Porto é o Porto, ponto.

Nenhum portuense – e aqui incluo todo os que, não habitando na cidade, vivem nela e vivem-na a ela – irá discordar com esta frase. O Porto é uma cidade que se sente, não se explica. Uma cidade multifacetada, foliona no São João, aberta durante o Verão, e melancólica – sem ser triste – no Outono, onde os seus cinzentos lhe dão uma luz própria e se torna mais bela. Resumir por isso uma cidade a uma imagem e a um slogan é uma discussão interessante, mas no final, irrelevante.

Uma cidade deve-se afirmar pela sua identidade. Sua, leia-se, das suas gentes, de quem a torna num organismo colectivo. A imagem e o slogan devem reflectir essa identidade, e não sobrepôr-se à mesma ou tentar modificá-la. E é aqui que a cidade do Porto falha: a sua identidade é difusa, numa esquizofrenia de “Portos” que se cruzam, mas nem sempre se interligam. O Porto já foi cidade de resistência, de revoluções, de trabalho, já quis ser da ciência, agora quer afirmar-se no turismo – mas mesmo aqui ainda não é certo que turistas quer, ou consegue cativar.

Ao longo da sua história – que precede a do país – o Porto tem sido sobretudo uma cidade resiliente, que se re-inventa de forma ciclíca, que não se recusa a cair no esquecimento e a tornar-se irrelevante. Olhando para esta história, e para as suas gentes, o Porto é uma cidade empreendedora, e de empreendedores. E essa deveria ser a identidade que a sua “marca” deveria reflectir, esse espírito criativo e de desenrascanço (filosofia tão portuguesa, como tudo o que tem de bom e de mau), que permita à cidade e às suas gentes recriarem-se sempre que necessário e serem, continuamente, líderes e visionários em áreas tão distintas e diferentes.

É por aqui que discordo com o “ponto”, por muito que ele seja reflexo deste sentimento tão tripeiro de que o Porto é nosso, e não precisa de mais adjectivos para se afirmar. Porque o Porto, mesmo quando se fecha ao Mundo, é uma constante criação da sua gente que se vai alterando em constante evolução. O Porto devia afirmar-se como a cidade do Empreendedorismo e trabalhar para que essa característica da cidade, e de quem a vive, fosse efectivamente a sua marca de afirmação para o mundo.

O Porto, não é por isso um ponto final. Quanto muito seriam reticências, a aguardar a próxima iteracção.

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