Category Archives: Política

STOP: Como os partidos americanos usam os princípios da persuasão para mobilizar eleitores

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As eleições para a Presidência dos EUA estão agendadas para 2016, mas a corrida para a Casa Branca já começou. E nada melhor para abrir as hostilidades do que uma guerra aberta entre os dois partidos em jogadas similares para mobilizar as bases e atacar os adversários.

Horas depois da ex-Primeira Dama anunciar oficialmente que se iria candidatar – sendo que primeiro terá de vencer as primárias do seu partido – que a máquina republicana lançou uma ofensiva clara anti-Clinton. O GOP lançou online a campanha “Stop Hillary” que tem o propósito de levar 100.000 a comprometerem-se publicamente em unir esforços para impedir que Hillary Clinton se torne na primeira mulher a assumir a liderança dos EUA.

A resposta democrata não se fez esperar e uma campanha em todo similar já está no ar. Intitulada “Stop the GOP” (os democratas ganham na sonoridade, embora tivessem uma tarefa mais fácil. Acho surpreendente como, tendo em conta tácticas do passado, os republicanos ainda não tenham optado por designar Clinton como “Hillarity”.) a campanha democrata também pede aos seus eleitores que se juntem no objectivo de impedir que um republicano ganhe as próximas eleições.

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Este tipo de estratégia tem vários objetivos:

  1. Abrir desde já uma frente de ataque aos potenciais adversários, que ainde terão de lidar com as primárias dos respectivos partidos;
  2. Mobilizar o eleitorado de base dando rosto(s) concreto(s) ao “inimigo”;
  3. Criar uma base de dados actualizada de contactos que podem ser usados futuramente na corrida eleitoral;

Começando desde já pelo terceiro objectivo, para assumir o compromisso os eleitores terão de deixar a informação pessoal, o que permitirá futuramente à máquina partidária realizar campanhas altamente direccionadas ao seu eleitorado. Sendo as eleições norte-americanas um árduo percurso, que engloba as primárias de cada partido, é importante impedir que qualquer candidato consiga criar momento, daí o objectivo número 1 de abrir já frentes de ataque antes que haja a possibilidade dos argumentos dos candidatos conseguirem atrair independentes e eleitores mais moderados de cada lado da barricada.

Mas o aspecto mais interessante nesta iniciativa – do ponto de vista de marketing político – é o formato de compromisso que se “força” os eleitores a assumir. A necessidade de consistência entre comportamentos e atitudes é algo basilar nos seres humanos, daí que o apelo a essa mesma consistência seja um dos principais meios de persuasão psicológica. Ao assumirem este compromisso, ainda que a mais de 1 ano das eleições, é mais provável que os eleitores actuem de acordo com o mesmo e se desloquem às urnas para votar no seu partido. Uma jogada inteligente que aproveite um sólido conhecimento científico do comportamento humano em proveito de um partido político.

Obviamente que esta iniciativa tem o seu potencial negativo, desde logo junto de eleitores mais moderados e mais preocupados com os candidatos do seu partido do que em denegrir os adversários. Mas também correm o risco de criar um ponto de união no partido adversário que leva a uma maior mobilização.

Sendo as campanhas em tudo similares, os Republicanos ganham este round em termos de execução. Desde logo porque se focam num único adversário, mesmo tendo em conta que isso tem mais a ver com os timmings de anúncio das candidaturas do que outra coisa. É mais fácil focar a acção contra uma ameaça específica e corporizada num indivíduo, do que dispersar o mesmo intuito por vários potenciais candidatos. Também criaram um objectivo comum, claro e mensurável: atingir as 100.000 assinaturas! Para isso os republicanos também incorporaram um contador na página de subscrição, usando a validação social para demonstrar a quem possa estar indeciso que não está só e que irá juntar-se a uma “maioria”.

Mas onde os republicanos realmente ganham é na linguagem usada no CTA. Enquanto que os democratas optaram por um simples “I’m in”, o GOP foi para uma linguagem simbolicamente mais forte e com maior peso do ponto de vista psicológico “Sign the pledge”. Desta forma dão um aspecto mais formal ao acto: não se tratar de um simples clicar de um botão; é assumir através da assinatura virtual um compromisso de honra para com o partido. Muito mais forte e mobilizador.

Será interessante seguir a campanha norte-americana e analisar as tácticas usadas pelos dois aparelhos partidários. Pode ser que os partidos portugueses aprendam algo de útil.

Quantos votos vale uma celebridade? O caso Oprah Winfrey

Dificilmente haverá hoje em dia alguma personalidade televisiva mais influente do que Oprah Winfrey. A apresentadora norte-americana tem o verdadeiro “toque de Midas”, uma vez que praticamente todas as marcas que recomenda se tornam sucessos quase instantâneos. O Efeito Oprah, como é designado, tem ajudado a vender livros, colants, pipocas e sabonetes, como comprova a Claus Porto, cujos sabonetes se tornaram um sucesso após serem recomendados por Oprah. A LAFCO, empresa que comercializa os sabonetes nos EUA, registou um aumento do volume de negócios em mais de 1 milhão de euros em 30 dias após surgirem no programa de Oprah.

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O Impacto (Reduzido) das Redes Sociais nas Eleições?

Desde a famosa campanha de Obama que o impacto que as redes sociais podem ter no desfecho político de uma eleição têm sido alvo de inúmeros estudos. O próprio Facebook vangloriou-se da capacidade predictiva da plataforma relativamente às eleições para o Senado norte-americano em 2010.

No entanto, nem todos os dados apontam para este cenário de grande influência das redes sociais. Os próprios dados relativos às eleições que Obama ganhou demonstram que foram os eleitores mais velhos a garantir a vitória Democrata. Igualmente, uma análise baseada unicamente no número de seguidores no Facebook não permite prever os resultados das primárias Republicanas, como indica um artigo da AdAge:

Despite Mr. Obama’s much-hyped “youth quake,” the young social-media army often credited with carrying him into the White House, the 2008 election was won by galvanizing an older population of Democrats and independents, many of whom had never used social media.

Even more recently, the wild inconsistency between Republican primary wins and social-media prowess has made the relative unimportance of social media in political campaigns all the more obvious (i.e. internet heavyweight Ron Paul hasn’t won a single primary). (…)

In a key contest of 2010, Tea Party favorite Sharron Angle vs. Senate Majority leader Harry Reid, Facebook was wildly off. In late October, Ms. Angle had a staggering seven times as many Facebook fans as Mr. Reid (104,000 to 14,000), yet he snagged a comfortable victory, 50% to 45%. Thus, while it is tempting to believe that the size of a candidate’s online fan-base is significantly helpful in getting elected, the numbers just don’t add up.

O artigo continua afirmando que a melhor forma de garantir que uma pessoa irá votar é através da pressão social dos seus pares, e influenciando essa pessoa directamente. Melhor ainda será se, à pressão social, se juntar a capacidade de levar essa pessoa a assumir publicamente o compromisso de votar evocando a norma da consistência.

Apesar de concordar com alguns dos pontos do artigo, e de achar que o impacto das plataformas das redes sociais é excessivamente sobrevalorizado, também sou da opinião que estas plataformas, quando geridas adequadamente, têm um potencial elevado para a mobilização do eleitorado. Infelizmente o artigo centra-se unicamente na capacidade de predicção dos resultados de uma dada eleição, e esquece-se que mais do que um barómetro ou uma sondagem de opinião esta plataformas são um canal de comunicação e socialização.

Link: AdAge – Waiting for the ‘Twitter Election?’ Keep Waiting

RickRolled pela Casa Branca

E se de repente a conta do Twitter da Casa Branca usasse um dos mais famosos memes da internet para responder a alguém que demonstrou via Twitter o seu aborrecimento com um dos seus briefings? Pois foi isso mesmo que aconteceu hoje, com uma resposta da @whitehouse a David Wiggs (@wiggsd). Wiggs publicou o seguinte tweet:

Ao qual recebeu a seguinte resposta:

O link já sabem onde vai dar, mas se se querem sentir “rickrollados” pela Casa Branca, façam o favor de clicar.

Candidata Espanhola Impedida de Usar os Seios para se Promover

Afinal ainda não vale tudo em publicidade… pelo menos na política espanhola onda a candidata à “alcáldia” de Ciutadela em Menorca Soledad Sanchéz foi obrigada a retirar os seus cartazes onde apresentava os seus “dois grandes argumentos” à vitória política. Em todo o caso saúda-se o recurso a propaganda política que se foca na transparência e na verdade.

A Ignorância dos Eleitores

Jonah Lehrer publicou um interessante texto no seu blog The Frontal Cortex, sobre a ignorância dos eleitores, ou, mais correctamente, sobre a tendência que os seres humanos têm em filtrar a informação a que têm acesso sobre determinado tema de forma a que apenas os dados que confirmam as suas posições iniciais sejam assimilados, enquanto que as informações contrárias – que causariam estados de dissonância cognitiva – acabem por ser ignoradas ou relativizadas. Uma leitura obrigatória, sobretudo para quem quer compreender o actual clima político português:

[T]he difference between rational voters (what we think we are) and rationalizing voters (what we really are). It turns out that the human mind is a marvelous information filter, adept at blocking out those facts that contradict what we’d like to believe. (…) We silence the cognitive dissonance through self-imposed ignorance.

Unfortunately, the same process also applies to our political beliefs. It doesn’t matter if we’re holding forth on birth certificates or tax policy – we can’t help but discount and disregard facts that contradict what we’d like to believe. The Princeton political scientist Larry Bartels analyzed survey data from the 1990’s to prove this point. During the first term of Bill Clinton’s presidency, the budget deficit declined by more than 90 percent. However, when Republican voters were asked in 1996 what happened to the deficit under Clinton, more than 55 percent said that it had increased. What’s interesting about this data is that so-called “high-information” voters – these are the Republicans who read the newspaper, watch cable news and can probably identify their representatives in Congress – weren’t better informed than “low-information” voters. According to Bartels, the reason knowing more about politics doesn’t erase partisan bias is that voters tend to only assimilate those facts that confirm what they already believe. If a piece of information doesn’t follow Republican talking points – and Clinton’s deficit reduction didn’t fit the “tax and spend liberal” stereotype – then the information is conveniently ignored. “Voters think that they’re thinking,” Bartels writes, “but what they’re really doing is inventing facts or ignoring facts so that they can rationalize decisions they’ve already made.”

Link para o artigo: The Frontal Cortex – The Ignorance of Voters

Imagem: voting instructions, by Muffet

Como o Local de Voto Pode Afectar Quem e no Que Votamos

Votar é um direito essencial numa democracia e um dos pilares essenciais das sociedades ocidentais. Através do voto os cidadãos podem fazer-se “ouvir” e ajudar a decidir o futuro das suas nações. Poucas actividades humanas serão encaradas com igual importância como o acto de votar; uma actividade considerada racional e livre e que representa aquilo que distingue qualitativamente o Homem de outras espécies. É nesta assumpção de liberdade e racionalidade que a maioria das campanhas políticas são construídas e analisadas.

Mas tal como outras actividades humanas, há muito de “irracional” na forma como votamos. Não só nem sempre analisamos os argumentos de forma racional, pesando os prós e contras de cada proposta, como somos influenciados por factores externos à própria campanha como sendo o local onde votamos. Por exemplo, o facto de se utilizar igrejas como local de voto (prática comum nos EUA) pode a levar que candidatos e propostas mais conservadoras (dentro do espectro político dos EUA) recebam um maior número de votos do que seria esperado que recebessem caso não houvesse qualquer influência do contexto.

Um estudo levado a cabo na California State University explorou ainda mais esta influência do contexto no resultado de uma votação, através de um estudo de campo no qual os sujeitos respondiam a questões relativas ao montante que pessoas que apresentavam queixas contra empresas que produziam pílulas contraceptivas ou casos de trabalhadores que sofreram acidentes de trabalho em um de dois locais: uma igreja ou um edifício secular. Os resultados do estudo demonstraram que o valor atribuído a quem apresentava queixas devido ao mau desempenho de pílulas contraceptivas era menor no grupo de sujeitos que respondeu na igreja do que no grupo que respondeu no edifício secular. Tal diferença não surgiu no caso dos trabalhadores que sofreram um acidente de trabalho.

Um outro estudo levado a cabo dentro do mesmo tema e pelo mesmo investigador, Abraham Rutchick, mas em contexto laboratorial corroborou os resultados do estudo de campo embora neste caso a manipulação não se tenha verificado ao nível do local de resposta, mas sim à exposição a imagens eclesiásticas antes de responder: aqueles que foram expostas a essas imagens atribuíam menos dinheiro aos queixosos face a empresas que produzem pílulas contraceptivas, mas não para queixas sobre acidentes de trabalho.

O essencial destes resultados parece ser evitar realizar eleições em igrejas, ou locais que estejam conotados fortemente com um conjunto de atitudes que possam influenciar o resultados das votações. O que demonstram é que mesmo em actividades que exigem o máximo da nossa racionalidade somos influenciados por outros factores que escapam à nossa consciência.

Imagem: ballot, by turtlemoon